sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cemitério


   Não tinha jeito de quem estava no mundo para fazer amizades, sempre com o rosto sério, uma forma desconcertante de olhar as pessoas, andava com firmeza como se ninguém estivesse na sua frente.  Nunca pretendeu ser popular, pouco se importava em ser assim, sempre dizia ser amado por quem era importante e agora ia visitar a pessoa que havia mais importado o seu amor.
   Desceu do carro e perguntou ao jornaleiro onde era o cemitério daquela cidade. Sem maiores dificuldades chegou ao local indicado e ficou olhando aquele lugar, então era ali a última morada de quem tinha vindo ver pela última vez.
  Era igual a outros vistos em outros lugares, as cruzes, túmulos, jazigos, aquele clima de tristeza tão característico. Recusava-se a entrar neles, detestava até mesmo passar em frente, tinha deixado instrução para ser cremado e assim nem quando morto seria levado para uma cova com uma lápide qualquer, no entanto estava lá procurando uma sepultura em especial.
   Devia a ele ao menos uma despedida, um adeus ou quem sabe até logo e por isso estava ali, para pagar sua dívida. Ficava falando em uma vida pós-morte, quem sabe estava certo e um dia se encontrariam em alguma parte do além para gargalharem sobre o que já tinham aprontado lá em cima e aqui embaixo.
   As sepulturas tinham números, nomes e uma frieza triste, enquanto procurava se escutou dizendo "só você para me fazer vir aqui, seu filho da puta " e riu alto sem se importar com algum estranho vendo a cena. Não é comum rirem em cemitérios, pensou, se alguém me vir fazer isso pensará se tratar de um maluco e sorriu dessa vez, afinal já tinha deixado de ser são há muito tempo. Chegou até onde tinham indicado e lá estava seu nome, data de nascimento e morte, por algum momento desejou ver algum erro e assim ter alguma dúvida, mas estava tudo correto, embora não aceitasse até então era verdade a sua morte, uma triste verdade.
   Estava morto e agora não iriam se ver novamente nunca mais, pensando isso, chorou, as lágrimas caíram por vários minutos e então se recompôs. Não tinha vindo ali para isso e sim para uma despedida e eles mereciam isso, portanto iria fazer conforme o combinado.
   Tirou uma garrafa de whisky do bolso e dois copos, encheu cada um e bebeu brindando a vida e ao vivido por eles. Bebeu até esvazia-la, já bêbado, xingou o morto por ter partido sem ele, isso não era justo, tantas coisas juntos e aprontava uma dessas. Uma morte repentina, se ao menos tivesse sido uma perda anunciada com tempo para todos ficarem preparados, mas foi de repente, em uma cidade qualquer, longe dele até mesmo na despedida.
   Afastou-se daquele local tonto por causa da bebida. Era um bom de um filho da puta, fazê-lo entrar naquele lugar só para se despedir, pensou. Alcançou o portão de saída, disse um adeus triste e foi caminhando com os olhos úmidos em frente. A vida deles tinha acabado. Agora só restava a sua e iria vivê-la enquanto pudesse e quisesse.

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