quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Notícias de Vitória

      Os tiros começaram há alguns minutos atrás. Eram poucos; agora são muitos. Rajadas a todo instante são ouvidas. É um velho costume no reino: a cada vitória conquistada, os soldados erguem as suas armas para o alto e atiram para comemorar. Em um país onde ter uma arma é cultural, não são raros os civis armados atirando também, anunciando para todos mais uma guerra terminada. Logo, as ruas estarão cheias de gente se abraçando; outros irão se emocionar ao lembrar dos soldados mortos, e por alguns dias só se falará disso em todos os cantos.
Eu não tenho arma em casa. Optei por não ter nada que me despertasse lembranças do meu passado: farda, medalhas, arma; doei tudo. Foi o melhor a ser feito. Lembranças só devem ser guardadas se forem boas, no coração e em casa. Caso contrário, o melhor é a gente se livrar o quanto antes para não sofrer mais.
Há alguns anos atrás, eu seria um dos soldados nas ruas, dando gritos de felicidade com um sorriso para todos. Mas não posso mais; já não tenho pernas. Elas ficaram em algum lugar depois de eu ter pisado em uma mina terrestre há tempos atrás. Não sei dizer quando foi exatamente; tento todos os dias esquecer os acontecimentos naquele momento. Olho com saudade o guerreiro levantar seu fuzil e atirar. Ele repara no meu olhar e vem até mim com passos firmes:

- Também já foi soldado?
- Já. Como você sabe?
- A sua tatuagem no braço é de quem serviu no décimo batalhão.
- Eu fui um guerreiro valente. Infelizmente, não morri quando perdi parte do meu corpo.
- Então sabe o que eu estou sentindo nesse momento?
- Sim, eu sei.
Olho para ele com olhos de saudade. Como não saber? Eu estava no momento que o nosso rei começou essa guerra. Lembro até hoje do seu discurso emocionado, dizendo ter chegado à hora da gente conquistar o que há tanto tempo sonhávamos. Eu fui um dos que estiveram na derrota mais dolorosa de todas as batalhas, quando me feri e voltei para casa enfermo. Entendo perfeitamente os sentimentos dos soldados e imagino como deve estar o coração do nosso soberano. Luto para não me emocionar; posso estar em uma cadeira de rodas, mas ainda sou um soldado, valente como nos tempos de batalha, e um desses não chora em público, nunca.
O guerreiro me olha e respeitosamente coloca seu fuzil na minha mão. "Pode atirar", ele fala, "você merece". Eu ergo com dificuldade, pressiono o gatilho até escutar a primeira rajada, depois a segunda e terceira. Meu coração palpita; eu estou emocionado. Entrego o fuzil ao dono e vou para casa. Deus não deixou-me morrer no campo de batalha, e eu tive a alegria de ver essa vitória. Já não importa o futuro; agora posso ir em paz.
Pela rua, empurro minha cadeira lentamente. Os tiros agora são constantes; moradores já saem para comemorar. Imagino as bases militares como devem estar; hoje, a festa deve ir até o amanhecer. Apesar de tudo, estou feliz. Hoje será uma noite especial; não tomarei remédios para dormir.
Entro em casa, percebendo que estou sozinho. Solto um grito e várias lágrimas. "Ele conseguiu; nós conseguimos", murmuro enquanto subo na cama, ligo a televisão e ouço uma repórter falando. Adormeço com a notícia da vitória...
- Ainda não foi confirmado pelas fontes oficiais, mas começam a surgir soldados de toda parte comemorando. Esperamos a qualquer momento a confirmação oficial do final da guerra...

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