domingo, 4 de março de 2012

Noite Longa

 Não queria estar aqui. Preferia está em uma cama quente, tentando me preparar para os acontecimentos que estão por vir, mas hoje é meu dia de ficar na “contenção”, dia de proteger a minha vida e a dos meus irmãos, e aqui estou eu, tendo como companhia, meus temores e minhas certezas.
Todos estão tensos, as noticia não são boas por aqui. Muitos dizem que o rei vai se retirar, outros falam em  lutar não importando a situação, e assim a central dos boatos de guerra vai gerando notícias sem confirmações oficiais, de certo somente a constatação de estarmos em uma situação difícil nessa colônia.
Eu não vivi tantas guerras, mas os mais velhos contam não ser a primeira vez que uma colônia passa de um lugar agradável para um território problemático, citam exemplos anteriores onde à situação ficou insustentável e fomos obrigado a bater em retirada deixando para trás um território onde fomos felizes por muito tempo.
Se eu pudesse escolher, fico e luto, gosto daqui, se as ordens for para ir embora, eu acato e sigo o decidido pelo soberano. Segundo me contam, as retiradas são dramáticas, sempre fica uma parte de cada um mesmo estando preparados para esse momento, mesmo sendo prevista, por mais que todos se preparem para o pior. Já vi histórias de soldados preferindo morrer como mártir a ir embora, no museu de guerra tem uma lista de desses nomes. São considerados heróis de guerra, soldados corajosos preferindo a morte no campo de batalha a ir embora deixando para trás, amores, valores, lembranças.
A frase mais comum por aqui é “se preparar para o pior”, é como se todos estivessem focados apenas nisso, em proteger o pouco que tem e não se machucar tanto.
Hoje quando saí de casa, rumo ao quartel, via sempre nas feições uma resignação de quem já enfrentou isso outras vezes. Os jovens iguais a mim, talvez por não terem passado por tantas guerras, se sentem na obrigação de lutar até o último homem, mas quem já veio de outras guerras apenas espera o futuro, sem nutrir expectativas ou fazer promessas de resistências.
Cheguei aqui no cair da noite e assumi meu posto de sentinela, só saio ao amanhecer se Deus quiser. O vento bate no meu rosto, vem me fazer companhia um soldado, que luta desde o tempo das terras verdes, traz no corpo cicatrizes de outras batalhas, não resisto e puxo conversa:

- Preparado para retirada?

Ele me olha e sorri melancolicamente:

- Já me retirei de tantas, mais uma talvez não doa mais do que já doeu às outras. Seja feito conforme o rei decidir.

 Falo com esperança:

- Talvez dessa vez não doa.

Ele me olha, dessa vez sério:

- Aprenda uma coisa. Toda retirada irá sempre doer. 

 Falando isso, acende um cigarro e fica em silêncio olhando para o firmamento. Reparo que faz um esforço enorme para não demonstrar os seus sentimentos, mais pelo visto, sofre muito.

- E se a gente lutar. E se a gente não se retirar, e lutar, quem sabe a gente consiga.

- Garoto eu vou lhe dizer algo. Se o rei quiser lutar eu estou á disposição. Nesse momento eles estão deliberando isso, pelas minhas experiências anteriores, a noite vai ser longa e as decisões se virem será durante o dia. Se o rei quiser lutar por isso aqui, estou aqui de fuzil na mão, mais se a decisão for retirada, será mais uma na minha vida.

Fico pensando nessa resposta. Esse é um pensamento recorrente entre os mais velhos. Uma certa indiferença em relação ao que será decidido. Enquanto os mais novos querem lutar a qualquer custo, os veteranos apenas aguardam os acontecimentos. Muitos deles são abertamente contra a ficar por aqui, defendem esse pensamento dizendo que ao chegar nessa situação, lutar é apenas adiar a derrota.
Eu quero lutar até o fim, não desistir antes do final mesmo com poucas coisas a nosso favor, talvez pense assim por não ser um veterano de guerra com tantas feridas sem cicatrizar. Se isso não acontecer, seja o que Deus quiser.
            

Nenhum comentário:

Postar um comentário