segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Velhos Amigos

- Entra. Pode entrar. Não está fechada.

O quarto era escuro, sombrio e com o cheiro característico de lugar que há muito não via a luz do sol. Entrei tentando manter um rosto agradável.

- Ainda lembra de mim, filho da puta?

- Jesus Cristo. Essa voz. Essa voz! É você mesmo? É quem estou pensando?

Tinha a voz surpresa tentando esconder o embargo da emoção. Tenho certeza que nunca esperava minha presença ali.

- Quem é vivo sempre aparece. E mesmo morto eu iria aparecer para você, arrombado.

- Deus meu. O que você está fazendo aqui, peste ruim? A covid não te levou?

- Não. Perdemos muitos para a maldita doença, mas eu fiquei.

- Até hoje eu não me recuperei, velho amigo.

E quem se recuperou, eu penso? É como se tivesse sido ontem. Há um bloqueio na minha mente com lapsos do desespero de outrora.

- E quem se recuperou, velho amigo? Nem você, nem eu, nem ninguém. Por isso está aqui vivendo nesse lugar horrível?

- Estou onde pude ficar. O dinheiro é escasso. Não posso pagar algo melhor.

- Pode melhorar isso aqui. Uma janela aberta não paga impostos.

- Não paga. O que te fez voltar aqui?

- Nunca deixo um inimigo para trás. Quanto mais um amigo. Vim por você. Preciso te tirar daqui.

- Não quero sair. Não quero ir embora. Quero ficar.

- Fique, mas não nessa situação. Estou aqui para te ajudar a reerguer.

- E você? Já se ergueu para tentar ajudar os outros?

- Quem tem pouco pode dividir o que tem? Não precisa esperar ter muito, cara.

- Eu não saio daqui.

- Ok. Mas juntos vamos melhorar tudo isso.

- Vamos sim.

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