- Entra. Pode entrar. Não está fechada.
O quarto era escuro, sombrio e com o cheiro característico de lugar que há muito não via a luz do sol. Entrei tentando manter um rosto agradável.
- Ainda lembra de mim, filho da puta?
- Jesus Cristo. Essa voz. Essa voz! É você mesmo? É quem estou pensando?
Tinha a voz surpresa tentando esconder o embargo da emoção. Tenho certeza que nunca esperava minha presença ali.
- Quem é vivo sempre aparece. E mesmo morto eu iria aparecer para você, arrombado.
- Deus meu. O que você está fazendo aqui, peste ruim? A covid não te levou?
- Não. Perdemos muitos para a maldita doença, mas eu fiquei.
- Até hoje eu não me recuperei, velho amigo.
E quem se recuperou, eu penso? É como se tivesse sido ontem. Há um bloqueio na minha mente com lapsos do desespero de outrora.
- E quem se recuperou, velho amigo? Nem você, nem eu, nem ninguém. Por isso está aqui vivendo nesse lugar horrível?
- Estou onde pude ficar. O dinheiro é escasso. Não posso pagar algo melhor.
- Pode melhorar isso aqui. Uma janela aberta não paga impostos.
- Não paga. O que te fez voltar aqui?
- Nunca deixo um inimigo para trás. Quanto mais um amigo. Vim por você. Preciso te tirar daqui.
- Não quero sair. Não quero ir embora. Quero ficar.
- Fique, mas não nessa situação. Estou aqui para te ajudar a reerguer.
- E você? Já se ergueu para tentar ajudar os outros?
- Quem tem pouco pode dividir o que tem? Não precisa esperar ter muito, cara.
- Eu não saio daqui.
- Ok. Mas juntos vamos melhorar tudo isso.
- Vamos sim.
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