Fogos na favela é aviso e para mim é sempre sinal de perigo. Não sou mais "da vida" cumpri a minha pena e saí pela porta da frente, mas inocência no morro não serve para muita coisa se você é preto e cai nas mãos de policiais sejam eles negros ou brancos. Farda não embranquece, deixa incolor, preto, branco, mestiço, não interessa, são todos policiais com o mesmo pensamento racista. Não me venham com conversa de que nem todos são assim, que estou generalizando e coisas do tipo, só quem tremeu na mira de um fuzil em uma viela sabendo que se fosse branco de olhos claro tinha passado "batido" sabe do que eu falo. Nessas horas até ateu vira cristão e já vi muito moleque marrento virar humilde em um piscar de olhos.
É mole atrás de um computador ou em um bar qualquer a gente ser corajoso, dizer bravatas, mas quando a "chapa esquenta" meu mano, tem que ser muito homem para não perder a dignidade seja você bandido ou não, vagabundo violento acostumado a botar terror nessas horas se liga que o medo é forte e domina todo mundo.
A correria no morro é intensa, vou andando pedindo para São Jorge me proteger, se corro e sou visto ninguém vai me mandar parar e averiguar se sou inocente ou não, favelado correndo é porque está "devendo" e a prática comum é o "polícia" atirar para depois procurar saber se é inocente ou não e o fato de está na vida certa não vai adiantar de nada, basta um auto de resistência forjado para eu ser mais um suspeito morto no confronto com a polícia.
Morador vai descer para se manifestar e serão visto como defensores de bandidos ou vândalos, minha família vai chorar e no outro dia ainda ver no jornal a notícia me incriminando como se bandido fosse. Assim é o Rio de Janeiro, terra do mais forte, onde eu sobrevivo ao dia a dia violento tentando não cair em tentação.
Finalmente chego em casa são e salvo, abro a porta e fico aliviado. Aqui corro menos risco, apesar de mandado de segurança só ser usado no asfalto, aqui se as "autoridades" chegarem ainda me dou por satisfeito se eles pedirem para entrar, muitas vezes invadem com a certeza de que eles sempre têm razão perante a "burguesia" e o favelado sempre será culpado.
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