Voltou aquela cidade porque ainda tinha amigos naquele lugar. Eram poucos é verdade, mas sempre era motivo para voltar. O fato de ter passado tanto tempo ali dava uma sensação agradável de ambiente familiar e o deixava a vontade quando retornava. Os riscos de lembranças desagradáveis a cada volta eram freqüentes como foi dessa vez, feridas não cicatrizadas daquelas que nós mentimos para nós mesmos dizendo ter esquecido, mas algo o atraía ainda, talvez o desejo de que voltasse a ser feliz ali como já tinha sido um dia.
No principal ponto de encontro da cidade entrou e satisfeito reconheceu uma amizade da antiga a quem cumprimentou efusivamente, ia seguindo para seu lugar preferido quando se surpreendeu ao escutar um nome ser chamado. Não existiam muitas pessoas com um nome tão peculiar (na verdade só lembrava de um), virou-se e reconheceu aquele rosto, por alguns instantes parou, não poderia ser ele pensou, naquele lugar depois de tanto tempo era coincidência demais.
Não foi reconhecido, era impossível isso ocorrer, tinha certeza que ele nem lembrava mais do ocorrido há cinco anos atrás em um lugar bem diferente. Já tinha esquecido de tudo, quem bate esquece, quem apanha nunca, ainda mais quem tem uma memória tão boa a ponto de se orgulhar de nunca esquecer uma ofensa ou uma ajuda mesmo que passe muito tempo.
Encontrou uma mulher amiga de muito tempo, conversou animadamente e depois de algum tempo perguntou se conhecia aquela pessoa e de onde ele tinha vindo. Após a resposta sentiu o desejo de vingança se tornar intenso.
Tanto tempo depois e lá estava ele, tranqüilo sem suspeitar estar tão perto de um inimigo, a hora da cobrança tinha chegado e não teria perdão. Não tinha esquecido os momentos difíceis que passou, quantas vezes teve que engolir ofensas sem dar motivos. Anos atrás estava fora do seu território, em terras estrangeiras, lutando para sobreviver, sem forças para reagir. Tinha resistido por necessidade, não tinha para onde ir e teve que agüentar humilhações sem necessidade do seu inimigo.
Acariciou a arma na sua cintura, sentiu o coração bater mais forte e o sangue esfriar. Conhecia-se quando estava assim ocorria uma transformação com o desejo de sangue presente. Nessa noite ele teria o troco, para aprender que não se faz o mal aos outros impunemente.
Esperou à hora adequada e caminhou na direção do desafeto, passos firmes, com o sabor de vingança na boca, um sorriso frio e assustador no rosto, faz a pergunta "se lembra de mim?" com um jeito frio no olhar, recebe uma negativa como resposta, não se lembra mais, tanto tempo, tudo foi esquecido, quem há de se lembrar de algo tão bobo depois de tanto tempo. Ele se lembrava e fez questão de relembrar enquanto puxava a arma. Ao terminar de falar disparou, arma no automático, pontaria certeira sem chances de sobrevivência.
Saiu dali rapidamente, adrenalina a mil, tinha se vingado de mais um, tinha feito justiça, mais uma conta em aberto que tinha sido fechada.
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