Domingo de sol no Rio de Janeiro, os pais levam as suas crianças para a praça, outros jogam futebol, fazem churrasco em seu quintal e eu aqui desesperado rezando para dá tempo de socorrerem a minha menina. Eu só queria me proteger e no entanto me sinto tão desprotegido.
Até agora eu não sei como aconteceu e isso nem interessa, os vizinhos correram com a gritaria da minha mulher depois de escutarmos o barulho de tiro, chorando gritava o nome da filha e eu entendi a situação sem precisar ver com meus olhos. Como eu queria toda essa situação sendo um pesadelo daqueles que acordamos assustados no meio da noite, mas é real, tristemente real, os risos de antes se transformaram em dor e por minha culpa.
Os gritos de socorro chamaram a atenção de um motorista que aceita levar a criança para o hospital, não o conheço e, no entanto se torna a pessoa mais importante para mim nesse momento, o desespero é total, choro e lamento das pessoas, eu não consigo chorar. As lágrimas não aparecem no rosto, como se até elas me acusassem da tragédia em minha casa, eu causei todo esse desespero, foi sem querer e isso não importa. Meu lar é meu castelo, foda-se o governo, sou um cidadão comum e preciso me proteger, dizia sempre. É meu direito ter uma arma se quiser e não medi conseqüências para isso, me julgar agora é fácil mas muitos pensam igual a mim.
A arma foi comprada na rua, numeração raspada e se fosse legal não mudaria nada na minha vida, seria a mesma coisa, somente não responderia pela posse ilegal, e daí? O processo é apenas um detalhe nessa desgraça toda, prefiro mil vezes uma cadeia pelo porte a ficar livre e me condenar eternamente pela morte da minha filha. Deus, cadê você, se existe me escuta, por favor, ela não tem culpa do pai achar que estava protegendo sua família tendo uma mensageira do inferno dentro de casa, ela merece viver eu posso ir em seu lugar.
Chegamos ao hospital e o enfermeiro coloca a vítima na maca, vai levando para a sala de cirurgia, deixa a reprovação no olhar de muitos quando me encaram, posso me transformar em um assassino mesmo sem querer. Fazer valer o meu direito a ter uma arma pode ter sido o motivo para nunca mais ter paz, como iria adivinhar que a menina iria encontrar, estava tão guardado, todos são testemunhas, eu escondia bem, grito alto, ninguém se importa com as minhas desculpas, sou julgado e condenado por quem até ontem nunca teve coragem de me criticar e até concordava comigo.
Uma bala na cabeça, estado grave o médico disse, pode ter seqüelas, tudo isso por causa de mim e poderia ter sido evitado. Bastava não ter uma arma em casa.
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