quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Morte

  - Vai ser de uma forma dolorosa? Não suporto a dor, já te falei isso.


 - Não sei detalhes, mas perguntei isso e informaram que não. Não ia te avisar, poucos tem esse privilégio, mas sempre tivemos um relacionamento próximo por isso fiz esse favor.

  - Privilégio? Favor? Não sabia que anjos ficavam bêbados e falavam merdas para quem deveria proteger.

  - As pessoas podem morrer a qualquer momento, no entanto fingem não saber disso. Adiam compromissos, fazem planos, não vivem o presente, deixam para depois o que poderiam fazer agora e quando partem ficam lamentando o tempo perdido. Você terá duas semanas até sua morte e acredite é um privilégio saber isso, poderá aproveitar bem os dias restantes.

  - Eu ainda tenho tanta coisa para fazer...

  - Terá duas semanas para fazer as importantes, as outras não importam. Nesses quatorze dias irá entender isso muito bem.

  - Tanta pessoa ruim por aí e vão me levar? Puta mundo injusto.

  - Se eu fosse você em vez de se lamentar, trataria de viver cada segundo que resta. Acredite, não haverá atrasos e nem antecipações. Na hora marcada sua partida ocorrerá.

  - Talvez haja algum engano, ou lá em cima mudem de idéia, sei lá.

  - Esqueça. Foi decidido e não será mudado. Viva o que resta não cometa o erro de desperdiçar seu tempo.

  - E você?

  - O que tem eu?

  - Pelo que eu sei, sempre esteve cuidando de mim. Para isso serve os anjos da guarda. Quando sair dessa vida para onde você vai?

  - Não se preocupe comigo, agradeço seu carinho. Minha função é cuidar das pessoas até o final de suas vidas. Quando elas partem, me confiam outras missões, ou seja, vou proteger alguém que está iniciando a sua jornada. É um ciclo eterno.

 - Você é um bom protetor, me ensinou demais e irá ensinar a outra pessoa também. Sorte dela, ter você ao lado.

 - Irei ensinar com certeza e algumas das coisas ensinadas foram aprendidas te protegendo. Muitas vezes aprendi ao longo da sua vida e saiba quando suas lágrimas caíram meu rosto também se molhou, quando sua mãe não aguentou velar seu sono e dormiu eu permaneci vigilante preparado para alertá-la caso piorasse. Teve noites que até torcedor virei, tudo para te ver feliz.

 - Sério? (rsss).

 - Sim, ou acha que foi parar no atendimento médico naquela decisão por quê? Fiquei olhando o gol sendo feito e não percebi que você estava passando mal. Quando me dei conta o enfermeiro te levava para enfermaria e eu me recriminava pela negligência.

 - Hahahaha. Lembro disso. Tivemos momentos bons.

 - E ruins também.

 - Sim, naquela chuva de 99, lembra? Putz, nem sei como não fui arrastado pelas águas.

 - Eu sei (sorriso) Não foi porque eu te ajudava a equilibrar. Se estivesse sozinho ia parar dentro de algum bueiro.

 - Também teve aquela vez que encheu a cara e cismou de voltar dirigindo. Tive trabalho para você não encontrar a chave do carro até alguém te convencer a pegar um táxi.

 - Enchi a cara por um motivo justo, era comemoração.

 - E quase vira tragédia. Quando me avisaram do risco de acidente entrei em desespero tentando impedir sua saída.

 - Desculpa pelo trabalho. Causei muitos problemas né?

 - Foi divertido. Cumpri bem meu trabalho, não falhei.

 - Cumpriu sim. Bem, já que esteve até aqui não vai me deixar na mão nessa reta final, portanto vamos em frente até a linha de chegada. Ou vai me deixar na mão depois de tanto tempo? (rsss).

 - Claro que não. O tempo não para, vamos em frente.

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