- Vai ser de uma forma dolorosa? Não suporto a dor, já te falei isso.
- Não sei detalhes, mas perguntei isso e informaram que não. Não ia te avisar, poucos tem esse privilégio, mas sempre tivemos um relacionamento próximo por isso fiz esse favor.
- Privilégio? Favor? Não sabia que anjos ficavam bêbados e falavam merdas para quem deveria proteger.
- As pessoas podem morrer a qualquer momento, no entanto fingem não saber disso. Adiam compromissos, fazem planos, não vivem o presente, deixam para depois o que poderiam fazer agora e quando partem ficam lamentando o tempo perdido. Você terá duas semanas até sua morte e acredite é um privilégio saber isso, poderá aproveitar bem os dias restantes.
- Eu ainda tenho tanta coisa para fazer...
- Terá duas semanas para fazer as importantes, as outras não importam. Nesses quatorze dias irá entender isso muito bem.
- Tanta pessoa ruim por aí e vão me levar? Puta mundo injusto.
- Se eu fosse você em vez de se lamentar, trataria de viver cada segundo que resta. Acredite, não haverá atrasos e nem antecipações. Na hora marcada sua partida ocorrerá.
- Talvez haja algum engano, ou lá em cima mudem de idéia, sei lá.
- Esqueça. Foi decidido e não será mudado. Viva o que resta não cometa o erro de desperdiçar seu tempo.
- E você?
- O que tem eu?
- Pelo que eu sei, sempre esteve cuidando de mim. Para isso serve os anjos da guarda. Quando sair dessa vida para onde você vai?
- Não se preocupe comigo, agradeço seu carinho. Minha função é cuidar das pessoas até o final de suas vidas. Quando elas partem, me confiam outras missões, ou seja, vou proteger alguém que está iniciando a sua jornada. É um ciclo eterno.
- Você é um bom protetor, me ensinou demais e irá ensinar a outra pessoa também. Sorte dela, ter você ao lado.
- Irei ensinar com certeza e algumas das coisas ensinadas foram aprendidas te protegendo. Muitas vezes aprendi ao longo da sua vida e saiba quando suas lágrimas caíram meu rosto também se molhou, quando sua mãe não aguentou velar seu sono e dormiu eu permaneci vigilante preparado para alertá-la caso piorasse. Teve noites que até torcedor virei, tudo para te ver feliz.
- Sério? (rsss).
- Sim, ou acha que foi parar no atendimento médico naquela decisão por quê? Fiquei olhando o gol sendo feito e não percebi que você estava passando mal. Quando me dei conta o enfermeiro te levava para enfermaria e eu me recriminava pela negligência.
- Hahahaha. Lembro disso. Tivemos momentos bons.
- E ruins também.
- Sim, naquela chuva de 99, lembra? Putz, nem sei como não fui arrastado pelas águas.
- Eu sei (sorriso) Não foi porque eu te ajudava a equilibrar. Se estivesse sozinho ia parar dentro de algum bueiro.
- Também teve aquela vez que encheu a cara e cismou de voltar dirigindo. Tive trabalho para você não encontrar a chave do carro até alguém te convencer a pegar um táxi.
- Enchi a cara por um motivo justo, era comemoração.
- E quase vira tragédia. Quando me avisaram do risco de acidente entrei em desespero tentando impedir sua saída.
- Desculpa pelo trabalho. Causei muitos problemas né?
- Foi divertido. Cumpri bem meu trabalho, não falhei.
- Cumpriu sim. Bem, já que esteve até aqui não vai me deixar na mão nessa reta final, portanto vamos em frente até a linha de chegada. Ou vai me deixar na mão depois de tanto tempo? (rsss).
- Claro que não. O tempo não para, vamos em frente.
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