Um dia chegou, parou em um bar e perguntou onde poderia se hospedar. Não deu muitos detalhes de onde estava vindo e para onde pretendia ir, despertou a curiosidade dos poucos que estavam no estabelecimento daquela cidade pequena.
Uma semana depois, as fofoqueiras já sabiam que ele tinha se interessado pela casa vazia na rua principal, devia ter dinheiro, comentavam, pois era um imóvel caro, e para surpresa de uns e suspeita de outros adquiriu a casa e ficou morando lá se integrando a rotina do lugar.
Um homem estranho por certo, envolto em mistérios, sem o menor interesse em matar a curiosidade alheia sobre a sua vida pregressa e com um jeito simpático de ser. Era esse comportamento que atraia a atenção das pessoas para si quando começava a contar algum acontecimento, era um contador de causos, divertia as pessoas com as suas histórias, adorava quando paravam para prestar atenção enquanto narrava com riquezas de detalhes o ocorrido para expectadores atentos.
Homem sozinho costumava no final da tarde se sentar na praça do centro olhando as crianças e mães que habitualmente ficavam ali por algumas horas e começou um dia a entreter meninos e meninas com contos infantis. No começo ficavam umas duas ou três escutando sua narração, semanas depois já era freqüente a meninada se juntar para esperar a sua chegada. As crianças sentavam em volta dele enquanto o homem começava as suas narrações, as mães e babás ficavam atrás e muitas delas também acompanhavam com interesse o que ele falava.
Eram crianças, adultos somente aqueles que acompanhavam os meninos e meninas, mas logo se juntaram a eles outros adultos que o conheciam de outros lugares e conheciam o seu dom. Esses também se interessaram e por isso uma parte do tempo era dedicado a eles e nessas ocasiões os contos deixavam de ser temas infantis e passavam falar de guerras, amores, alegrias e tristezas, enquanto para os pequenos existia fantasia para os mais velhos tinha a realidade.
Ficou conhecido como “o contador de historias”, falava de guerras, batalhas, aventuras em terras estranhas, sempre em terceira pessoa, nunca se identificava como algum personagem da trama e quando lhe perguntavam quem era ele na historia respondia ser tudo ficção, criação da sua cabeça sem ter nada de verdade.
As pessoas acreditavam e desses tinham aqueles que entendiam as historias como um ensinamento ou conselho, para outros era quase uma auto ajuda e tinha aqueles que tratavam como uma diversão como se fosse um folhetim falado ao vivo para eles.
Especulavam sobre aquele estranho homem, devia ser um escritor ou algo do tipo, quem sabe escrevia para alguém e não querendo ser incomodado se mantinha incógnito, fato é que ninguém sabia quem ele era.
Quando caia a noite o contador de historias se preparava para dormir, sempre com algum causo na cabeça e com a certeza de que somente ele sabia o real significado das suas historias.
A maioria dos seus causos contados tinha ocorrido realmente, mas nas suas palavras o cenário e a época eram diferentes do acontecimento real, lugares eram trocados por outros, sentimentos ganhavam nomes e cargos como se fossem gentes, pequenos acontecimentos ganhavam grandiosidade, e era assim que lidava com a sua dor e se mantinha são, falando dos seus fantasmas para as pessoas tentando não ser assombrado quando se via sozinho.
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