quinta-feira, 24 de maio de 2012

Desespero


    Lutava contra a ansiedade, tinha chegado a data marcada, mas não estava feliz por sair dali apesar de detestar aquele lugar. Durante os dias ali internado tinha tentado de todas as formas fazer da estadia algo agradável mas o máximo alcançado era que não fosse tão ruim assim. A data estava marcada em sua mente, e mesmo se quisesse esquecer a plaquinha na sua cama posta na noite anterior lembrava constantemente. Tentou pensar pelo lado bom, como fazia com tudo na vida, já tinha passado por aquilo outras vezes e ao final de alguns meses se recuperava e retornava a sua vida normal, não seria diferente daquela vez tentou se encorajar. Na sua cabeça era um valente enfrentando todas as situações quando na verdade não passava de um menino assustado cheio de gente estranha em volta querendo o colo da mãe ou alguém para lhe dizer que estava tudo bem.
   Olhou pela janela, chovia, não se surpreendeu, por isso detestava dias de chuva coincidentemente eles estavam associados a momentos difíceis em sua vida, dessa vez não era diferente. Sentiu fome, daria tudo por um sanduíche saboroso com coca cola, chegou a salivar pensando nisso e no entanto estava obrigado a um jejum, ali tudo era detestável, não deixava nenhuma vontade de retornar, nenhuma saudade, nenhum sentimento de tristeza por ir embora, pensou desolado. Quanto tempo iria ficar dessa vez, nas outras ocasiões em menos de um mês estava de volta para casa, ferido, abalado emocionalmente tendo que se recuperar da melhor forma possível.
   Os minutos vão passando, não sabe a hora que vão levá-lo, disseram somente ser na parte da manhã, a barriga dá sinais de fome, a ansiedade aumenta e o medo se faz presente, tem vontade de chorar compulsivamente, dizer a todos que não quer ir, está assustado demais e adiem tudo, mas se cala. Homem não chora aprendeu desde pequeno, ser forte é preciso a vida lhe ensinou, e não é hora de fraquejar. Aprendeu a enfrentar tudo de frente e não seria dessa vez que iria se envergonhar demonstrando o quanto era fraco.
   A porta se abre, um homem com uniforme branco conduz a maca em direção a sua cama, chegou a hora finalmente, a confirmação do paciente é feita entre eles enquanto o menino só escuta sem dizer nada, absorto em seus pensamentos, pedindo a Deus para lhe proteger mais uma vez.
   É colocado na maca e sai dali carregado pelo homem, o caminho é conhecido por eles, sabe de cor onde vai passar, sente um frio na barriga conforme vão avançando no chão trepidante tal qual seu coração.
   Corredores, curvas, elevador, se recorda de um aviso pregado em uma parede, metade do caminho já foi percorrido, tenta pensar em coisas boas, será que esse ano seu time vai ser campeão, vai pedir um refrigerante bem gelado quando estiver longe dali, tenta se lembrar do sol lá fora de como é gostoso senti-lo na face, do vento no rosto, gente sem uniforme, pessoas queridas perto sem ser de passagem, vai sair dessa tem certeza, papai do céu vai atender seus pedidos.
    O homem de branco caminha rápido, não conversa, não fala nada, passadas largas, caminha firmemente rumo ao seu destino, levando a maca pela mão. É um profissional, faz isso todos os dias sem se preocupar com a historia de quem leva, automaticamente leva e traz pessoas no leito móvel sem deixar-se envolver, aprendeu desde o primeiro dia a fazer isso caso contrário o psicológico não agüenta lhe disseram nessa ocasião. Imerso em seus pensamentos começa a escutar um choro infantil, volta a realidade e percebe o menino na maca chorando forte, para e procura saber o motivo do pranto.
   Está passando mal? Sente alguma dor? Pergunta preocupado já preparado para acionar a emergência, descobre que não, é apenas medo, daqueles desesperadores, que faz a gente perder o controle do nosso corpo e da mente, é o medo e desespero de um menino que conseguiu ser homem até quando pode e naquele momento era apenas uma criança assustada se sentindo sozinha.
   O profissional se lembra do seu filho em casa, emociona-se, e deixa de lado o profissionalismo e passa a agir como um pai, falando palavras carinhosas, tentando acalmar a criança. Perde vários minutos, parado ali tentando de alguma forma cessar o choro, consegue com palavras amenas e  reconfortantes. Retoma o seu caminhar, dessa vez mais devagar, prestando atenção em quem leva, chega ao destino final, o ambiente gelado, inóspito, tristemente conhecido pelo menino.
   É deixado ali sozinho, como das outras vezes, tenta se confortar, pensar em coisas boas, será que dessa vez a seleção ganha a copa do mundo, vai pedir três revistas em quadrinhos quando sair dali, vai se recuperar tem certeza disso apesar do coraçãozinho está com os batimentos cardíacos acelerado.
    Alguém chega e o leva até a sala de cirurgia, olha aquelas máquinas, o ar gelado, pessoas em volta com aqueles uniformes brancos, chegou a hora, é a vida lhe ensinando a enfrentar tudo de frente mesmo quando o desespero é tão forte que não conseguimos nos manter em pé.

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