sexta-feira, 11 de julho de 2014

Tristeza (Carla V)

- Pai

- Oi, Carla.

- Você ainda está triste?

- Com a seleção?

- Sim. O pai da Raisa falou que isso é bem feito para quem fica torcendo. Eles ganhando dinheiro e a gente chorando.

- Ele é um tolo. 

- Então pode chorar por causa de futebol?

- Pode sim, meu amor. Nessa vida podemos chorar sempre que tivermos vontade. Não é vergonha chorar de tristeza, mesmo que estejamos tristes por causa de futebol.

- Mas você não chorou.

- Não, eu já vi muitas eliminações, vexames, tristezas, aprendi a lidar com esse tipo de dor sem precisar chorar. Mas não me orgulho disso.

- Por quê?

- Porque eu preferia que não tivesse vivido dores suficientes para evitar o choro. Queria chorar igual você chorou como se fosse uma das minhas primeiras decepções.

- Eu odeio a seleção. Nunca mais vou torcer por ela.

- Meu amor, se você se apaixonar por futebol igual me apaixonei, se você amar um time ou a seleção igual a mim sempre irá torcer. Sabe por quê?

- Não

- Porque sempre tem um próximo jogo, uma próxima competição, outra copa do mundo. Essa é a lição, Carla, que o futebol me deu. Choramos hoje, mas o mundo não para. Sempre tem um próximo jogo.

- Você vai continuar torcendo, pai? Mesmo depois dessa vergonha?

- Para a seleção eu tenho um motivo para torcer meu amor.

- Qual?

- Senta aqui que eu te digo. A partir de agora, a cada copa eu estarei com você e a cada vitoria da seleção você me ligará ou vai me procurar para falar sobre copa do mundo. Vamos lembrar dessa e eu te direi que enxuguei suas lágrimas durante o jogo e sofri mais por você do que pela seleção. Entendeu? Copa do mundo agora será algo que vai te fazer lembrar-se de mim e eu de você.

- Eu não sou boba por ficar chorando porque perdeu?

- Não, você não é. Bobo é quem não se permite chorar.

Pensou em dizer para a pequenina que os torcedores assinam um contrato onde está previsto o sofrimento e que são mais decepções do que alegrias, que lágrimas por causa de futebol são comuns aos torcedores, algumas caem da face e outras são invisíveis, mas não seria maldoso em quebrar o encanto da pequenina. Apesar da vergonha brasileira ela tinha ficado fascinada com o futebol, a copa do mundo, nos gols do Brasil comemorava, deitava no seu colo para acompanhar outros jogos, tinha certeza que iria virar uma torcedora e isso o fazia feliz.

Outro dia iria ensiná-la que futebol é assim mesmo, mas como disse o poeta disso a gente nunca lembra quando ganhamos. Iria ensinar que ser torcedor é sempre ter esperanças em dias melhores, é um ato de perseverança, de espera pelo surgimento de um ídolo, por um título, uma vitoria épica. Sim, iria ensiná-la, enxugaria suas lágrimas quando ela chorasse como o fez naquela maldita quarta feira, iria praguejar baixinho quem por acaso fizer sua pequena triste, mas estaria ao seu lado, torcendo juntos. Iria viver para os dois comemorarem juntos um Brasil campeão do mundo, sim, iria, não partiria desse mundo sem isso.

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