- Pai
- Oi, Carla.
- Você ainda
está triste?
- Com a
seleção?
- Sim. O pai
da Raisa falou que isso é bem feito para quem fica torcendo. Eles ganhando
dinheiro e a gente chorando.
- Ele é um
tolo.
- Então pode
chorar por causa de futebol?
- Pode sim,
meu amor. Nessa vida podemos chorar sempre que tivermos vontade. Não é vergonha
chorar de tristeza, mesmo que estejamos tristes por causa de futebol.
- Mas você não
chorou.
- Não, eu já
vi muitas eliminações, vexames, tristezas, aprendi a lidar com esse tipo de dor
sem precisar chorar. Mas não me orgulho disso.
- Por quê?
- Porque eu
preferia que não tivesse vivido dores suficientes para evitar o choro. Queria
chorar igual você chorou como se fosse uma das minhas primeiras decepções.
- Eu odeio a
seleção. Nunca mais vou torcer por ela.
- Meu amor, se
você se apaixonar por futebol igual me apaixonei, se você amar um time ou a
seleção igual a mim sempre irá torcer. Sabe por quê?
- Não
- Porque
sempre tem um próximo jogo, uma próxima competição, outra copa do mundo. Essa é
a lição, Carla, que o futebol me deu. Choramos hoje, mas o mundo não para.
Sempre tem um próximo jogo.
- Você vai
continuar torcendo, pai? Mesmo depois dessa vergonha?
- Para a
seleção eu tenho um motivo para torcer meu amor.
- Qual?
- Senta aqui
que eu te digo. A partir de agora, a cada copa eu estarei com você e a cada
vitoria da seleção você me ligará ou vai me procurar para falar sobre copa do
mundo. Vamos lembrar dessa e eu te direi que enxuguei suas lágrimas durante o
jogo e sofri mais por você do que pela seleção. Entendeu? Copa do mundo agora
será algo que vai te fazer lembrar-se de mim e eu de você.
- Eu não sou
boba por ficar chorando porque perdeu?
- Não, você
não é. Bobo é quem não se permite chorar.
Pensou em
dizer para a pequenina que os torcedores assinam um contrato onde está previsto
o sofrimento e que são mais decepções do que alegrias, que lágrimas por causa
de futebol são comuns aos torcedores, algumas caem da face e outras são
invisíveis, mas não seria maldoso em quebrar o encanto da pequenina. Apesar da
vergonha brasileira ela tinha ficado fascinada com o futebol, a copa do mundo,
nos gols do Brasil comemorava, deitava no seu colo para acompanhar outros
jogos, tinha certeza que iria virar uma torcedora e isso o fazia feliz.
Outro dia iria
ensiná-la que futebol é assim mesmo, mas como disse o poeta disso a gente nunca
lembra quando ganhamos. Iria ensinar que ser torcedor é sempre ter esperanças em
dias melhores, é um ato de perseverança, de espera pelo surgimento de um ídolo,
por um título, uma vitoria épica. Sim, iria ensiná-la, enxugaria suas lágrimas
quando ela chorasse como o fez naquela maldita quarta feira, iria praguejar
baixinho quem por acaso fizer sua pequena triste, mas estaria ao seu lado,
torcendo juntos. Iria viver para os dois comemorarem juntos um Brasil campeão
do mundo, sim, iria, não partiria desse mundo sem isso.
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