sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Escuta, Doutor

   Seu doutor... Você não entende... Madame disse que samba, carnaval, essas coisas do povão não é bom pro país... Madame disse e você concorda que o carnaval faz uma tal de alienação com o povo. Não sei o que é isso, seu doutor? É doença? Algo que eu deva ter medo igual as balas perdidas? Igual quando meu filho adolescente sai e eu tenho medo dele está no lugar errado na hora errada? Aconteceu isso com a vizinha, doutor. O filho dela morreu duas vezes. Uma vez assassinado por homens armados. A segunda vez pelos seus amigos aqui nas redes sociais. Sua reputação de bom menino deu lugar a "nessas horas todo mundo é estudante". Mas deixa pra lá, deixa eu falar de carnaval.
    O senhor não entende e nem tentarei explicar, Não sou bom de palavras e meu vocabulário é pouco. Deixa o povo se divertir, doutor. Deixa o povo chorar suas mágoas sambando. Deixa quem quiser ir pras ruas e curtir os dias de folia. Deixa o povo em paz seu doutor. Sua gente sempre que tenta consertar o Brasil faz besteira e nos atrasa mais. Não vai ser o carnaval ou a falta dele que irá mudar o Brasil. Deixa o povo em paz, doutor. Já sofremos demais. O povo precisa de festa,



Escuta, Doutor (II)

   Rio de Janeiro é uma cidade com gemidos de dor pelas suas vielas, ruas e avenidas. É um caos fazendo de cada cidadão um lutador a cada dia do ano. É um inferno organizado com as pessoas lidando com tragédias literais ou outras. É uma cidade que precisa do carnaval para purgar sua dor.
Nem sempre se faz festa porque está tudo bem. Entenda. As vezes é necessário cantar, sorrir para esquecer. Deixem o carnaval e quem gosta em paz. Acreditem: Não foram os blocos carnavalescos com sua (des) organização que colocaram o Brasil no buraco quando foram pras ruas. Não foram foliões os patos amarelos seguindo trio elétrico de financiados por empresários.
    Deixem o carnaval acontecer, o povo na rua, a subversão da ordem sem repressão estatal, as ruas sendo tomadas pelo proletariado.



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