quarta-feira, 13 de junho de 2018

As Copas que eu Vi

  Minha vida é marcada pelas copas do mundo que eu vi.  Entre uma copa e outra a vida vai mudando. O tempo passa e os sentimentos mudam e às vezes passo a ver copas antigas com outros olhos. Às vezes, só às vezes, até relevo algum vilão.
Esse é o último texto pré copa. Quando a bola rolar amanhã estarei vivendo nova história e que espero contar em 2022 e comecei em 1986 no México.

  1986 – A mão operada,  tristeza na rua, eu não tinha álbum, mas tinha as figurinhas vindas em chicletes ping pong.
Morava na primeira casa, onde eu vivi toda a infância, inexistente hoje em dia.
Vi o último jogo na casa da (saudosa) Tina e Jurema. Não lembro quem estava comigo, mas eram muitos. Voltei desconsolado pela calçada. Nunca me esqueço do clima triste.

   1990 –  Parte na casa da frente e parte na casa dos fundos colecionei meu primeiro álbum e até hoje o guardo incompleto. Rasgado, faltam duas figurinhas, o quero assim.
Lembro que contra a primeira fase foi na primeira casa e o jogo contra a Argentina na segunda. Difícil conter o choro, a decepção, tantos reunidos, saudosa Ida, saudades tio, o moleque virou um esquerdista mais radical do que vocês, veja só, tantos gols perdidos.

   1994 – Taffarel, Romário, Galvão narrando. Gol contra  Holanda, final no terraço da Dina, Jesus, só a imprudência adolescente para me fazer assistir a disputa de pênaltis.
Estávamos na casa de trás, álbum completo, guardado nos  meus pertences, parte da copa em uma TV preta e branca toda ferrada. Os tempos eram duros, mas eu tinha esperanças de melhoras.

   1998 – Um dos piores anos da minha vida. A derrota pra França foi mais uma dos momentos ruins.
O machismo idiota dizia “homem com foto de homem é gay” e a idiotice dos adultos dizia “colecionar álbum é coisa de criança”. Também por isso não tive o álbum, não comprei depois e hoje um custa mais de 500 reais. Não tenho.
A seleção foi até a final, a tremedeira do Ronaldinho nos custou um título e eu necessitei crescer na base da porrada.  A vida exigia.



   2002 – Um novo caminho, novos amigos, começa de sonhos e uma birra com a seleção. Detestava aquele time, não confiava em uma boa campanha,  odiei a polêmica da imprensa forçando a barra pro Romário ser convocado. Estávamos de volta à casa da frente já toda modificada, finalmente tinha um emprego e uma TV a cabo (um luxo que eu me permiti).
Assisti a final com dona mãe e quase chorei junto com o Ronaldo no ombro do Felipão.
Não colecionei o álbum, mas comprei completo tempos depois. Quase não mexo nele. É como se fosse um intruso junto com os outros que colei cada figurinha.

   2006 –  Minha vida iniciava um novo ciclo e eu estava lutando muito para estabilizar tudo. Várias mudanças e definitivamente eu tinha começado a assumir várias responsabilidades.
A copa de 2006 não foi das melhores e pra piorar era o auge de uma geração chata pra caralho em época de copa. (dá pra escrever outro texto somente sobre isso.)
Estávamos no apartamento, a TV a cabo tinha um delay monstro e a vizinhança gritou gol antes de eu ver. Por isso procurei uma antena velha e vi os primeiros jogos na analógica.
Zidane deu um recital comigo em um plantão vendo a derrota. Botafogo estava silencioso, triste, outra tarde melancólica guardada na mente.
Voltei a colecionar os álbuns da copa e alegremente percebi que tinha virado uma febre. Curti muito a Itália voltando a ser campeã do mundo.

    2010 – O ano que o Flu foi campeão brasileiro, eu estava terminando a faculdade, tentava me equilibrar perante os vendavais da vida.
 Gostava da seleção do Dunga, mas sabia que ia dá merda se o Kaká não jogasse bem. Não jogou. A derrota deu aos detratores do Dunga o que lhe tinham sido tirados em 1994.
Vi aquela derrota no apto e lamentei não ter chegado a final. Pela primeira vez colecionei um álbum de forma fácil.

   2014 – Começo de uma reconstrução que nortearia os 4 anos vindouros. Copa em casa, Espanha e Chile ficará eternamente no meu coração, uma seleção covarde e o auge da chatice daqueles citados em 2006. 7 a 1, humilhação que eu só vi os primeiros 20 minutos e abandonei o jogo. A copa das copas. Uma primeira fase com média de gols alta e gols lindos. O álbum foi fácil de colecionar, esperado com ansiedade por vários.

   2018 – sendo escrita a partir de amanhã.





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