Às vezes dói no meu coração perceber o quanto o pobre é invisível no Rio de Janeiro e tenho certeza de que é o mesmo no resto do país. Não basta ser vítima; muitas vezes, torna-se culpado e sua dor não comove.
E se o menino desaparecido morasse no Complexo do Alemão, favela que a Globo escolheu para ser o exemplo bem-sucedido da política governamental na segurança pública? Tenho certeza de que as cobranças seriam maiores e não estariam restritas a uma página qualquer do jornal.
Mas o menino Juan não teve essa sorte; morador da Baixada Fluminense, por coincidência (será?), negro está desaparecido há vários dias, com sua mãe já aceitando sua morte, querendo apenas o corpo para um enterro digno. Os suspeitos são policiais militares, nenhuma novidade para quem mora na favela e conhece os métodos usados pela corporação; talvez a única surpresa seja o fato de terem sumido com o corpo. Normalmente, socorrem a vítima, que acaba morrendo no caminho; tudo é conveniente e quem fica com a dor tem que se dar por satisfeito quando não sujam seu nome.
O menino não voltou para casa faz mais de uma semana, seus chinelos foram encontrados manchados de sangue, sua mãe chora em um programa qualquer da televisão, mas quem se importa?
A dor da favela não comove ninguém, pois, apesar de vítimas, são sempre culpados aos olhos dos estranhos."
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