domingo, 10 de julho de 2011

Mendigo

   A notícia dita com uma falsa calma é triste, mas por segundos é apenas um comentário que eu escutei.  É típico do coroa falar com uma frieza na voz sem senti-la no coração, anos de convivência me fazem acreditar nisso. Somente uma vez vi sua boca falar algo em tom de alarme e naquele dia a sua alteração na voz aumentou mais ainda o meu desespero. Quando criança acreditava ter um pai daqueles durão, ledo engano, o velho é sentimental, se emociona a toa, mas não perdeu o jeito manso de falar sobre tudo no mesmo tom. Talvez por isso, ou quem sabe por ter me acostumado com a invisibilidade dos excluídos, somente quando minha mãe me chama a realidade é que eu me dou conta da minha falta de sensibilidade, do quanto mesmo sem querer somos egoístas.
   O mendigo morreu, estava passando mal, contam, chamaram o SAMU, mas ambulância não apareceu. Morreu na rua, debaixo de uma marquise, longe da minha casa, mas se fosse perto, eu teria ajudado? Eu teria saído do meu mundo? Envergonhado sinto dúvidas.
  O morador de rua morreu, talvez não tenha agüentado o frio cortante, se dentro de casa já está difícil na rua então. Talvez o Brasil tenha sido mais frio do que a madrugada e por isso ele desistiu de viver, quem sabe. Às vezes a gente morre aos poucos, lutando para sobreviver e um dia diante de tantas derrotas desiste e aceita o chamado de Deus. Talvez agora esteja em paz, em outro mundo, menos cruel e egoísta. 

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