Morava em uma das muitas favelas do Rio de Janeiro, daquelas que a rede Globo não leva o criança esperança e não servem para turistas estrangeiros visitar. Aos sete anos já tinha visto mais coisas que muito adulto e a inocência infantil já estava ficando para trás. O pai tinha morrido em uma briga de bar causada por uma discussão sobre futebol quando ainda era bebê, a mãe trabalhava de faxineira nos bairros ricos para colocar comida em casa e pagar as prestações pelos poucos bens duráveis que tinham em casa. A vida é dura, mas não devemos reclamar tem gente pior do que nós sempre ouvia a mãe dizer, e era verdade. Tinha família em situação mais difícil e a vida daquela família não era tão ruim quanto outras, mas infelizmente o dinheiro não sobrava para presentes nas datas festivas.
Aniversário, natal, dia das crianças, não havia como a mãe presentear a ele e mais cinco irmãos, então não dava para ninguém, era o jeito materno de ser justa e todos compreendiam isso apesar da tristeza. A televisão mostrava a propaganda de brinquedos bonitos, os jornais mostravam os pais no shoping procurando presente para os filhos e para as crianças daquela casa a realidade não era aquela.
Fazia muito tempo que não tinha festa no morro, os mais velhos contavam que o " patrão" deixou de financiar desde que aquele lugar deixou de ser lucrativo e o tráfico não teve mais interesse em ficar. Pelas vielas ainda se via garotos vendendo drogas e um ou outro armado com uma pistola, mas nada parecido com outros tempos onde o tráfico era muito atuante naquele local e por isso a favela esquecida pelo poder público, pela sociedade civil também passou a ser pelo poder paralelo. Por isso a surpresa quando começou a correr o boato de boca em boca que esse ano o dia das crianças seria comemorado no morro, teria até um bolo gigante, diziam e a expectativa de pela primeira vez ter um dia das crianças feliz passou ficou em sua mente, fazendo parte dos sonhos e pensamentos durante muitos dias.
Ficava olhando da janela esperando ansioso algum preparativo, algo que indicasse ser verdade e quando passava mais um dia ia dormir decepcionado e com esperança de o próximo dia ser melhor. Os dias se passaram e chegou o dia doze e para sua tristeza parecia ter sido um boato falso, seria como em outros anos, crianças com seus brinquedos novos, famílias felizes e ele com a mesma frustração de anos passados. Ia pensando nisso e chutando o que encontrava pelo chão quando ao olhar a praça percebeu uma movimentação e para sua felicidade soube que estavam montando um palanque para a festa que seria feita naquela tarde.
Naquele dia conseguiu ser criança plenamente como todas deveriam poder se o mundo não fosse tão injusto, se esquecendo por um dia as tristezas e dificuldades que estava passando deixando de lado o jeito adulto que tão precocemente estava se instalando em seu temperamento. Participou das brincadeiras, ganhou um brinquedo e ficou até o fim da festividade lamentando que não pudesse durar mais do que um dia.
Quando tudo acabou foi para sua casa feliz e dormiu sonhando com aquele momento especial, agarrado com uma bola ganha de presente, agradeceu a Deus ter podido saber como era ser uma criança igual às outras.
No outro dia, durante a manhã, barulhos de tiros foram ouvidos. O tráfico executava um dos seus soldados deixando o corpo estirado no chão e familiares chorando em volta. O morro voltava ao seu normal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário