domingo, 8 de abril de 2012

Julgamento


- Doutor eu vou contar a minha historia, peço que o senhor não me julgue antes disso, por favor. Desculpa pelo meu vocabulário é o que eu tenho e sei que eu assusto os seus iguais quando me encontram em lugares comuns a nós, embora esses sejam bem poucos, a cidade não é partida como dizem, mas existe uma segregação social e racial não é mesmo? Por isso o meu povo fica de um lado e o seu de outro só se encontrando em raros momentos alguns deles não sendo bons.
 Um preto de favela andando pela rua tarde da noite é sempre um suspeito e se ele enfia a porrada em filho de rico torna-se culpado, sem direito a presunção de inocência ou justificativa aceitável, doutor, e nem adianta eu alegar legítima defesa, pois quando entrei na viatura já estava condenado por todos os presentes e nenhum deles se preocupou em saber o porquê da briga.
Eu não aceito covardia, aprendi isso na periferia onde a lei é do mais forte, mas tem que ter certo respeito pelos mais fracos, é meio contraditório eu sei, mas é assim que a gente vive e levo isso comigo para onde eu vou, por isso não aceitei ver aqueles quatros playboys torturando um cachorro e enfiei a porrada em um deles sem dó e nem piedade.
Era um cão, mas podia ser um homem, criança ou mulher, não importa, quem não pode se defender não deve ser atacado, é assim que eu penso. Bateram no cachorro e ele não pode revidar, tentaram me bater e eu revidei, e por isso vim parar aqui, por não ter sido mais uma vítima de um bando de babacas se achando bandidos perigosos. Não são, doutor, se acham violentos e não respeitam as leis, mas não passam de otários procurando problemas com quem é mais fraco, se algum de nós fosse bandido mesmo, teria alguma morte naquela noite com certeza e se o marginal fosse eu garanto ao senhor que estaria vivo agora.
Eu vinha andando pela rua quando vi a cena, eles chutavam o animal, eu gritei para parar, três deles se afastaram assustados, o quarto falou que ali não era o morro para eu falar alto e não me metesse. Permaneci parado, ele veio para cima de mim dando socos e pontapés, e então seu juiz, eu o fiz aprender a diferença entre um habitante de condomínio se achando violento e alguém que nasceu e foi criado na periferia tendo a violência como companheira constante.
 Ele levou a pior enquanto eu fui preso logo em seguida e por isso estou aqui, não sou santo e nem quero ser diante do senhor, mas naquele lugar todos eram culpados, ninguém estava com uma bíblia falando da palavra de Deus, porque só eu estou preso? Chamam-me de agressor como se eles tivessem sidos atacados de surpresa ou sem motivo nenhum, enquanto eu sou chamado de delinqüente, bandido ou marginal eles são os garotos, meninos, jovens. Isso é justiça, meritíssimo? Eu fui defender um animal da tortura porque não suporto covardia e faria isso de novo, aprendi nas ruas a respeitar os mais fracos.

Um advogado conseguiu que o processo fosse respondido em liberdade causando indignação em muitos na cidade, o agressor estava livre enquanto o agredido permanecia no hospital, e os outros três estavam com medo em suas casas.

Ao sair pela porta da frente da delegacia, alguns esperavam, notou que era encarado por alguns homens e sorriu ironicamente para eles.

Uma jornalista fotografou e a primeira página do jornal manchetou “O Sorriso da Impunidade”, e a foto trazia a legenda “Solto, agressor sorri para os amigos da vítima”.
Por vários dias, reportagens nos jornais e televisão comentaram esse assunto, como um jovem de classe média tinha sido covardemente agredido em uma briga de rua.

Comentários insinuaram uma suposta tentativa de assalto em vez de briga.

A tortura ao cachorro foi transformada em algo irrelevante, afinal de contas o importante era o jovem no hospital passando por cirurgias.

A discussão sobre o preconceito social e racial foi ridicularizada, chamada de coisas da esquerda, mimimi de um país politicamente correto demais, afinal, tudo hoje em dia é racismo.

A segurança pública foi criticada, os rapazes não podiam mais sair para se divertir em um lugar decente, pois até ali corriam riscos de vidas. Era um exemplo claro de como não tinham segurança nenhuma, pois se fosse o contrário, o preso não teria nem chances de revidar os socos recebidos. Era esse o país da copa?

Semanas depois os pais dos quatros rapazes receberam um aviso, a próxima vez que se encontrassem, não teria brigas, teria mortes. Ficaram com medo de denunciar, desesperados mandaram os "meninos" para fora do Brasil onde ficariam protegidos.

Reclamam até hoje desse país onde cidadão de bem não pode nem se divertir chutando cachorro enquanto bandidos ficam livres por chutar quem chuta cachorros.


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