sábado, 7 de abril de 2012

O Terceiro Dia

Não queria se levantar, por ela dormiria mais um longo tempo, talvez nunca mais acordasse se lhe dessem a opção de escolher. Já tinha pensado em tirar a sua vida, mas era covarde demais para isso, mesmo assim, pensou irônica, era capaz de fazer tudo errado e ainda passar o constrangimento de ser socorrida, chamar a atenção de todos, ser assunto de comentários maldosos, tudo o que sempre odiou desde sempre.
Olhou o despertador, já passava das treze horas, fazia calor, era melhor enfrentar o novo dia de vez da melhor forma possível, afinal, pior do que estava não podia ficar.
Bem, pensando bem, sempre pode ficar pior não é mesmo? A maldita lei de Murphy sempre nos lembra disso era só o que faltava para completar o cenário desanimador do domingo.
Ah, os domingos, lembrava-se deles alegres, com almoço em família, passeios ao parque, ida ao cinema, caminhadas ao ar livre, quando tudo mudou e começou a desabar não se lembrava mais, só sabe que como se diz por aí a “casa caiu” e não foi reconstruída apesar dos esforços feitos.
Ligou a televisão e um daqueles programas de auditório chatos tinha uma apresentadora falando sobre algo, firmou a vista e tentou clarear a mente para escutar melhor, falava sobre ser domingo de páscoa e misturava uma mensagem religiosa com o consumismo do chocolate vendido pela propaganda capitalista.
Lembrou ainda ser uma cristã católica, ao menos que soubesse não tinha sido excomungada e nem feito nada para isso, portanto ainda era uma católica mesmo que “tecnicamente” apenas, e passou a relembrar o que significava a páscoa.
Depois da sexta feira onde Cristo se sacrificava por todos e de um sábado de incerteza sobre a sua ressurreição, ao terceiro dia a profecia se cumpre e Jesus retorna ao convívio dos seus. Ficou pensando nisso por algum tempo, tentando lembrar das já longínquas aulas de catecismo quando ainda tentava se adequar aos padrões religiosos impostos pela sociedade.
Aos poucos foi percebendo, a mensagem da páscoa lhe dizia algo, parecia um pouco com o que estava passando naquele momento difícil, ela tinha crucificado os seus sonhos em uma estrada qualquer, largado eles a própria sorte pregados em uma cruz e tinha esquecido de deixá-los retornar ao terceiro dia.
Tinha se fechado a eles com medo de sofrer mais decepções assim como Tomé deve ter pensado quando lhe contaram sobre a volta do seu mestre, e quantas pessoas agiam assim na vida igual a ela, com medo de sofrer simplesmente se negavam a acreditar no ressurgimento de algo especial, preferiam a credulidade trazida pela racionalidade a esperança e sua capacidade triste de nos magoar em algumas situações.
O apostolo incrédulo ao tocar e sentir voltou a acreditar enquanto ela simplesmente se recusava a isso, mesmo com as chances dadas pela vida todos os dias para senti-los, tocar na realidade e vê-los aos poucos se concretizando, preferiam dizer a si mesmo não ser possível, tinha os visto morrerem na sua frente, alguns de forma cruel, porque diziam está voltando então não acreditava, e por não acreditar, os sonhos ficavam em seus túmulos.
Levantou-se da cama e foi tomar um banho, tinha decidido, o domingo da ressurreição divina, também seria o seu, não tinha morrido e pretendia viver, ou melhor, voltar a viver.

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