Era
uma cidade como outras daquele reino sem muita importância, governada por um
representante do rei que tinha a plena consciência que estando fora dali não
era ninguém enquanto naquele lugar o consideravam a autoridade máxima. As
casas não eram tão diferentes umas das outras, exceto a do governador,
maior e mais bonita. Tinha a igreja, uma venda onde os homens se reuniam
para jogar e beber e outra onde só vendia mantimentos.
Tinha chegado naquela cidade em uma tarde qualquer, em cima de um cavalo
cansado sem paciência para responder a perguntas curiosas e com algum dinheiro
no bolso. Quando perguntaram sua profissão deu uma risada irônica dizendo que
tinha alguns dons e voltou sua atenção para o copo com bebida imerso em seus
pensamentos. Comprou uma casa afastada mesmo sendo avisado que ela tinha
fama de ser amaldiçoada, pagou em dinheiro sem reclamar do valor e despertou a
cobiça das solteironas da cidade. Afinal, parecia ser solteiro e tendo comprado
uma casa pretendia se estabelecer na cidade, um bom partido com certeza.
Foi morar na casa, recebendo com um aparente desdém o aviso que as moças ali
eram direitas e que para evitar problemas tinha uma casa em um
lugar afastado da cidade para quem quisesse "se divertir". De
novidade passou a ser mais um morador do lugar, embora um tanto quanto
esquisito, os dias viraram meses, e os meses, anos, o forasteiro
solitário chegou e solitário ficou, embora durante os finais de semana sempre
fizesse questão de estar no puteiro da cidade. Bebia e jogava, mas nunca dava
respostas conclusivas sobre sua vida, algumas vezes quando de bom humor
gargalhava dizendo que era bruxo sem nunca ter dado motivos para isso.
Sobrevivia vendendo animais criados nos fundos de sua casa, não ia à missa aos
domingos (o que fez correr a suspeita de que ele tinha trato com o demônio) e
nas festas da cidade quando ia não fazia a menor questão de ficar acompanhado
de alguém. Era um sujeito estranho, mas como não incomodava ninguém também não
o incomodavam.
(Continua)
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