terça-feira, 19 de junho de 2012

O Bruxo (I)

Era uma cidade como outras daquele reino sem muita importância, governada por um representante do rei que tinha a plena consciência que estando fora dali não era ninguém enquanto naquele lugar o consideravam a autoridade máxima. As casas não eram tão diferentes umas das outras, exceto a do governador, maior e mais bonita. Tinha a igreja, uma venda onde os homens se reuniam para jogar e beber e outra onde só vendia mantimentos.
  Tinha chegado naquela cidade em uma tarde qualquer, em cima de um cavalo cansado sem paciência para responder a perguntas curiosas e com algum dinheiro no bolso. Quando perguntaram sua profissão deu uma risada irônica dizendo que tinha alguns dons e voltou sua atenção para o copo com bebida imerso em seus pensamentos. Comprou uma casa afastada mesmo sendo avisado que ela tinha fama de ser amaldiçoada, pagou em dinheiro sem reclamar do valor e despertou a cobiça das solteironas da cidade. Afinal, parecia ser solteiro e tendo comprado uma casa pretendia se estabelecer na cidade, um bom partido com certeza.
  Foi morar na casa, recebendo com um aparente desdém o aviso que as moças ali eram direitas e que para evitar problemas tinha uma casa em um lugar afastado da cidade para quem quisesse "se divertir". De novidade passou a ser mais um morador do lugar, embora um tanto quanto esquisito, os dias viraram meses, e os meses, anos,  o forasteiro solitário chegou e solitário ficou, embora durante os finais de semana sempre fizesse questão de estar no puteiro da cidade. Bebia e jogava, mas nunca dava respostas conclusivas sobre sua vida, algumas vezes quando de bom humor gargalhava dizendo que era bruxo sem nunca ter dado motivos para isso. Sobrevivia vendendo animais criados nos fundos de sua casa, não ia à missa aos domingos (o que fez correr a suspeita de que ele tinha trato com o demônio) e nas festas da cidade quando ia não fazia a menor questão de ficar acompanhado de alguém. Era um sujeito estranho, mas como não incomodava ninguém também não o incomodavam.

(Continua)

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