domingo, 18 de novembro de 2012

O Resgate



Carlos e Raquel gostavam de se ver como a dama e o vagabundo, eram diferentes e gostavam disso. Tinham se conhecido em um daqueles lugares do Rio de Janeiro onde as classes sociais se misturam e depois voltam para seus lugares de origem,  começaram a namorar, casaram e foram morar em um condomínio perto de uma favela.
Ela, filha de um casal classe média, educada em uma boa escola e com um futuro decidido quando ainda era criança, seguiu a risca o traçado, formou-se e é bem sucedida em sua profissão enquanto ele foi criado em uma favela, desde pequeno aprendeu as suas leis e forma de viver, estudante de escola pública, contou com uma boa dose de sorte e estudos para conseguir ter uma formação universitária e um emprego capaz de lhe pagar algo mais do que um salário mínimo.
Eram diferentes e davam risadas disso, não tinham dificuldades para lidar com isso apesar de algumas discussões.

- Já estou pronta, podemos ir.

-  Você não vai, já disse isso, não seja teimosa.

- Se eu não for você não vai também. A gente resolve de outro jeito.

- Claro que sim, existem outros modos da gente resolver né?

- Podemos comunicar a polícia.

- Você está maluca né?

- Claro, a polícia. Essa instituição que pessoas de bem procuram quando necessitam. Se você foi acostumado em uma terra sem lei, lamento.

- Humrum. Imagino eu entrando em uma delegacia dizendo que meu cachorro de estimação pode está no alto do morro e eu estou com medo de ir lá. Capaz até de mobilizarem o BOPE para o resgate.

- Não seja debochado!! Eles podem nos ajudar sim, te levar até lá escoltado.

- Vou tentar ser claro, entendeu? Primeiro, eu não vou pagar esse mico. Segundo, eu jogo bola na parte baixa do morro e quero continuar jogando. Terceiro, se eu chegar com carro de polícia, quem está com o cachorro vai ter muito medo e pode fazer uma merda, quarto, não perdi o juízo e nem quero perder a vida em uma troca de tiros.

(continua) 

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