Carlos
e Raquel gostavam de se ver como a dama e o vagabundo, eram diferentes e
gostavam disso. Tinham se conhecido em um daqueles lugares do Rio de Janeiro
onde as classes sociais se misturam e depois voltam para seus lugares de
origem, começaram a namorar, casaram e
foram morar em um condomínio perto de uma favela.
Ela,
filha de um casal classe média, educada em uma boa escola e com um futuro
decidido quando ainda era criança, seguiu a risca o traçado, formou-se e é bem
sucedida em sua profissão enquanto ele foi criado em uma favela, desde pequeno
aprendeu as suas leis e forma de viver, estudante de escola pública, contou com
uma boa dose de sorte e estudos para conseguir ter uma formação universitária e
um emprego capaz de lhe pagar algo mais do que um salário mínimo.
Eram
diferentes e davam risadas disso, não tinham dificuldades para lidar com isso
apesar de algumas discussões.
-
Já estou pronta, podemos ir.
- Você não vai, já disse isso, não seja
teimosa.
-
Se eu não for você não vai também. A gente resolve de outro jeito.
-
Claro que sim, existem outros modos da gente resolver né?
-
Podemos comunicar a polícia.
- Você está maluca né?
- Você está maluca né?
-
Claro, a polícia. Essa instituição que pessoas de bem procuram quando
necessitam. Se você foi acostumado em uma terra sem lei, lamento.
-
Humrum. Imagino eu entrando em uma delegacia dizendo que meu cachorro de
estimação pode está no alto do morro e eu estou com medo de ir lá. Capaz até de
mobilizarem o BOPE para o resgate.
-
Não seja debochado!! Eles podem nos ajudar sim, te levar até lá escoltado.
-
Vou tentar ser claro, entendeu? Primeiro, eu não vou pagar esse mico. Segundo,
eu jogo bola na parte baixa do morro e quero continuar jogando. Terceiro, se eu
chegar com carro de polícia, quem está com o cachorro vai ter muito medo e pode
fazer uma merda, quarto, não perdi o juízo e nem quero perder a vida em uma
troca de tiros.
(continua)
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