sábado, 4 de abril de 2015

Tragédia Cotidiana

Precisava escrever algo, um textão no face ou no word onde ficam guardados sem que ninguém leiam. Nas redes sociais um desabafo talvez, no tuiter usar várias pequenas mensagens para expressar o que sentia e mesmo assim não escreveu nada, preferiu caminhar por alguns minutos e logo depois sentar um banco de frente pro mar.
As ondas batiam na areia e o barulho chegava aos seus ouvidos quando sentiu uma presença familiar, sorriu, fazia algum tempo que ele não aparecia, pensou. 
Como se faz com os amigos, aqueles de longa data, chegou com perguntas diretas, sem saudações preliminares ou assuntos irrelevantes precedendo o que importava.

- Teve uma tragédia no Complexo do Alemão. Viu a notícia?

- Tragédias ali e em outras favelas são cotidianas. Infelizmente. Um menino morreu né?

- Morreu. Baleado na cabeça.

- Policial ou bandido?

- Tudo leva a crer que foi a polícia.

- Lamentável.

- Já escreveu algo sobre?

- Não, estou evitando ler e falar sobre isso.

- Porque?

- Não quero desejar o mal a escória do Brasil em uma quinta e sexta feira santa. Não quero desejar a canalhas o que merecem por incentivarem a barbárie.

- Entendo. Não precisa lidar com esses, existem pessoas que não conhecem toda a realidade de uma favela, precisam saber.

- Sempre tem quem fale, grite, não precisam da minha voz. 

- Um clamor é feito de várias vozes...

- Eu não estou conseguindo lidar com o mau-caratismo. Não estou conseguindo lidar com pessoas que parecem ter perdido a humanidade.

- Não estou te mandando falar para esses. Mas sim a aqueles que ainda podem ser conscientizados.

- Se não foram até agora porque serão doravante? É inútil, são cegos, justificam, relativizam, não se importam.

- Alguns podem mudar de opinião. Fechar-se te fará menos uma voz gritando por justiça. E foi por não ter quem gritasse o suficiente que pessoas estão sendo assassinadas pelo Estado, dia e noite, cotidianamente.

- E o quer que eu faça? Vá em manifestações para tomar tiro, borrachada, spray no rosto?

- Não, leve a realidade para quem quer escutar. 


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