domingo, 31 de julho de 2016

Atlanta 96


No Brasil de noventa e seis começava o calvário do Flu, a internet começava sua expansão ainda dependente do Estado e televisão a cores deixava de ser luxo. O século XX começava a falar na sua aposentadoria e fazer planos para quando tivesse tempo sobrando.
Aterrorizado pela epidemia do HIV acompanhei a agonia do Renato Russo que partiria naquele ano. Era mais uma personalidade vitimada pela doença, o coquetel usado hoje em dia chegou tarde demais para o vocalista da Legião Urbana. O presidente era um sociólogo, perseguido pela ditadura, Fernando Henrique Cardoso ainda não tinha enlameado sua biografia enquanto eu terminava o ensino médio sem ter a menor perspectiva para noventa e sete. Se esse ano tem algo que mereça ser lembrado  é a chegada de mais um mega evento esportivo sediado novamente pelos EUA.
A pessoa escolhida para acender a pira foi Muhammad Ali. Segredo bem guardado, quando as câmeras do mundo inteiro focaram nele eu vi um negro altivo, mostrando para mim, que não o tinha visto lutar, porque era uma lenda do esporte.  Sua altivez conduzindo a tocha, acometido pela doença, me fez emocionar e reverenciar um mito que eu só tinha escutado algumas histórias e nada mais. Naquele momento eu me tornei fã do ex boxeador, ativista, grande nome do século. A olimpíada de Atlanta começou a ganhar meu coração para sempre naquela noite e até hoje eu a tenho como uma das melhores.
O cara que tinha sido campeão olímpico e jogado sua medalha fora em um ato de revolta e desilusão era reverenciado pelo mundo dos esportes,  como se fosse um pedido de desculpas, homenagem merecida. Não me importo desse evento não ser visto como um sucesso e sua escolha antipática por ter sido  mais pelo apelo comercial do que emocional. Ali era uma pessoa grandiosa, um nome histórico, um mito e só por ele tudo valeu a pena.
Ao contrário das outras duas olimpíadas que eu vi nessa teve “fartura” de medalhas para os padrões brasileiros e algumas me marcaram demais além do futebol sempre me decepcionando.
O bronze do vôlei feminino após uma derrota traumática para as cubanas foi conquistado no sofrimento, com o time tendo que juntar seus pedaços e tentando não sair de mãos vazias. Eu torci muito, achava muito merecido que subissem no pódio. No basquete feminino a prata conquistada foi uma poucas vezes nessa vida que não senti gosto de derrota em um vice.  O ouro do vôlei de praia foi à consagração definitiva das atletas femininas em uma final brasileira. A história estava sendo escrita  de novo.
A olimpíada em Atlanta foi considerada um fracasso tanto na organização e na escolha. Era uma olimpíada centenária e Atenas, capital da Grécia, preferida do mundo fora da política. Entre o apelo comercial e o emocional os cartolas preferiram o tilintar das moedas e não deu certo.

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