Arcos da Lapa, 2003, 2004, não sei dizer o ano correto.
Lembro apenas que nunca iria esperar viver o inferno atual.
No palco Mr. Catra canta seus maiores sucessos até então. Maconha, favelas, tráfico de drogas, facções
eram os temas dessas músicas. Seria denunciado um tempo depois quando
jornalistas flagraram as músicas sendo cantadas no Circo Voador. Inquéritos,
repressão, prisão de quem cantava os “proibidões” seriam freqüentes, mas
naquele tempo ainda se respirava em paz.
Noite tranqüila se você considerar o lugar que estávamos. Certo
momento garotos de rua, com andrajos, cantavam e dançavam perto da gente curtindo
o som. Coisas do Rio de Janeiro. Coisas da Lapa.
Fiquei até o final, não fui um dos que acenderam o isqueiro
quando ele pediu antes de começar a cantar “cadê o isqueiro? Demorou formar...”
e depois peguei o ônibus de madrugada voltando para casa. O Rio era perigoso,
mas não tanto quanto agora. Ou talvez a velhice tenha tomado o espaço
estreitando minha coragem. Fato é que eu gostava daqueles tempos com as músicas
marginais fazendo sucesso e podendo ser cantadas para um público daqueles.
O Catra que disse tolices a respeito da escravidão e cotas
não me interessava. Era mais um utilizando argumentos idiotas talvez para se
adequar ao seu novo lugar na sociedade. Talvez para manter o que tinha conseguido. Não
sei. Ignorei.
Também não nutria
simpatia pelo personagem que se transformou com seu sexismo ostentação. “Adultério” foi o sucesso que lhe apresentou
ao público dizem por aí. Eu dou risadas desse povo ignorando a favela. Sou
capaz de fazer um top 10 de sucessos muito antes dessa música. O tal funk
putaria, machista e chato fez sucesso, mas não me interessava por isso.
Era o Catra respeitado nas favelas, que falava o dialeto
dela, que se considerava cria de uma apesar da vivência em Copa que eu curtia.
Era o cara que um dia respondeu a um assaltante “ta maluco? Já viu playboy
preto?” quando o assaltante gritou “perdeu, playboy!” Era o MC que fazia shows
para a minha gente cantando a realidade que eu escutei por muito tempo..
É esse que eu vou lembrar sempre. Dizem que quem morre vira
santo. Santo? O Catra? O cara que cantava “quer ganhar um dim dim vende o x9
para mim”? Não, não era. Nunca foi. Por algum tempo foi um artista da favela
pra favela como tantos outros. E era esse que eu escutava.
Vai com Deus, Catra,
vai com o pai. Suas músicas fizeram parte da minha vida, minha formação
cultural, e estou sinceramente triste com sua partida.
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