domingo, 9 de setembro de 2018

Vai em paz, Catra


Arcos da Lapa, 2003, 2004, não sei dizer o ano correto. Lembro apenas que nunca iria esperar viver o inferno atual.
No palco Mr. Catra canta seus maiores sucessos até então.  Maconha, favelas, tráfico de drogas, facções eram os temas dessas músicas. Seria denunciado um tempo depois quando jornalistas flagraram as músicas sendo cantadas no Circo Voador. Inquéritos, repressão, prisão de quem cantava os “proibidões” seriam freqüentes, mas naquele tempo ainda se respirava em paz. 
Noite tranqüila se você considerar o lugar que estávamos. Certo momento garotos de rua, com andrajos, cantavam e dançavam perto da gente curtindo o som. Coisas do Rio de Janeiro. Coisas da Lapa.
Fiquei até o final, não fui um dos que acenderam o isqueiro quando ele pediu antes de começar a cantar “cadê o isqueiro? Demorou formar...” e depois peguei o ônibus de madrugada voltando para casa. O Rio era perigoso, mas não tanto quanto agora. Ou talvez a velhice tenha tomado o espaço estreitando minha coragem. Fato é que eu gostava daqueles tempos com as músicas marginais fazendo sucesso e podendo ser cantadas para um público daqueles.
O Catra que disse tolices a respeito da escravidão e cotas não me interessava. Era mais um utilizando argumentos idiotas talvez para se adequar ao seu novo lugar na sociedade.  Talvez para manter o que tinha conseguido. Não sei. Ignorei.
 Também não nutria simpatia pelo personagem que se transformou com seu sexismo ostentação.  “Adultério” foi o sucesso que lhe apresentou ao público dizem por aí. Eu dou risadas desse povo ignorando a favela. Sou capaz de fazer um top 10 de sucessos muito antes dessa música. O tal funk putaria, machista e chato fez sucesso, mas não me interessava por isso.
Era o Catra respeitado nas favelas, que falava o dialeto dela, que se considerava cria de uma apesar da vivência em Copa que eu curtia. Era o cara que um dia respondeu a um assaltante “ta maluco? Já viu playboy preto?” quando o assaltante gritou “perdeu, playboy!” Era o MC que fazia shows para a minha gente cantando a realidade que eu escutei por muito tempo.. 
É esse que eu vou lembrar sempre. Dizem que quem morre vira santo. Santo? O Catra? O cara que cantava “quer ganhar um dim dim vende o x9 para mim”? Não, não era. Nunca foi. Por algum tempo foi um artista da favela pra favela como tantos outros. E era esse que eu escutava.
 Vai com Deus, Catra, vai com o pai. Suas músicas fizeram parte da minha vida, minha formação cultural, e estou sinceramente triste com sua partida.

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