Dizem que se deve separar o personagem do mundo real. Ou o
artista da sua obra. Algo impossível para outros mas para mim é de boa. Candeia
era policial violento, Sabotage foi traficante, Facção Central o DumDum tirou
cadeia, Neymar é um babaca bolsonarista, mas é craque e não tremeu na
olímpiada. Se fosse o outro bolsonarista chorão teria desmaiado todo cagado
esperando o samu. Maradona era um cheirador alcoólatra com uma vida marginal
romantizada por brasileiros hipócritas.
E porque escrevi tudo isso?
Um dos meus ídolos na narração esportiva: Galvão Bueno.
Galvão é o narrador dos melhores momentos no esporte que eu
guardo com carinho exceto o primeiro título do Guga na França narrado pelo Rui
Vioti.
É um cara com a exata noção de ser parte do show, se torna
melhor do que o jogo as vezes, não é raro pensarmos que o jogo está uma merda
mas tem o Galvão confundido nome dos jogadores, repetindo teorias tão antigas
quanto decoradas por todos, com bordões inesquecíveis e isso é povão. Torcedor
especialista em futebol seria bom ouvir na academia, em palestras, congressos
ou com imensa paciência em algum grupo do face. Fora isso são chatos para
caralho vendo futebol de seleções.
Galvão Bueno é e dificilmente deixará de ser o narrador dos
meus momentos especiais seja em uma copa do mundo, medalha de prata no
atletismo, fórmula 1 e outros tantos esportes com ele lá.
Porém Galvão sofreu um processo de cancelamento faz algum
tempo (e depois escrevo sobre o início e porquê) e o "cala boca,
Galvão" "Pacheco" "torce descaradamente para a
seleção" entre outras coisas se juntaram a parte pessoal.
Galvão Bueno foi íntimo da relação de poder dividida entre
clubes, CBF, TV Globo e jogadores. Se
tornou íntimos de craques e inimigos de outros. Sua corneta feroz tal qual a de
um torcedor comum deve ter prejudicado a muitos. E isso causa críticas ferozes
até hoje. Justas em grande parte.
O "cala a boca Galvão" parece ter sido iniciado em
um desses programas que legaram ao Brasil a ascensão de um genocida e se tornado
popular junto com a ascensão de novos narradores em busca de espaço e com novos
públicos. Desgaste enorme da sua imagem e com ele insistindo em não se
aposentar. Em 2012 para agradar à torcida tricolor inclusive seu filho tentou
um "é tetra, é tetra" parecendo um ocaso.
Porque eu não sei, mas demitido não foi, continuou pelas
copas, eurocopas, copas américas e olimpíadas revertendo uma imagem negativa
cada vez mais forte até que chega em 2021 aclamado por ser o maior.
O tempo é inexorável e vai nos levando aos poucos o que
temos de melhor. E Galvão já não consegue narrar como vigor ou ao menos enganar
e continuar tentando. É divertido os bordões, as histórias aleatórias, as gafes
e cornetas, mas o narrador não consegue mais. É um craque em campo tentando
enganar o grande público com lançamentos, passes precisos, mas sem fôlego para
aguentar quarenta e cinco minutos e jogando noventa.
É embaraçoso pedir a aposentadoria de alguém mas faço isso a
vontade por ter nesse narrador o carinho que tive com Jose Carlos Araújo e por pouco
tempo Osmar Santo,
Está na hora de parar. Hoje foi constrangedor em alguns
momentos quando necessitou ecoar o grito de gol ou fazer dos pênaltis maior que
qualquer disputa é.
Tudo na vida tem um fim e é hora de a Globo tomar a decisão
de procurar outro narrador principal.
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