Existem lembranças que nos marcam e levamos para a vida inteira, algumas são agradáveis e quando relembramos deixamos sair um leve sorriso. Minha família era composta de pai, mãe e eu, morávamos em um desses bairros pobres do Rio de Janeiro que abrigaram nordestinos procurando dias melhores. Lembro pouco dos meus primeiros anos de vida, mas tem uma passagem marcante demais na minha mente.
Era mais um dia na nossa casa com seu quintal de pedra onde eu sozinho brincava. Típica casa de um subúrbio carioca que não existe mais, o portão baixo qualquer um podia pular sem dificuldades com grades na parte superior por onde olhava a rua esperando a tarde, horário que minha mãe me levava para a calçada e eu ficava brincando.
Menino, não tinha idéia do que acontecia no cenário nacional. Tempos depois iria estudar apaixonadamente cada detalhe, anos depois saberia que a minha terna lembrança é também um fragmento da história do Brasil. Recordo-me como se fosse algumas horas atrás, o rádio vermelho que chiava tanto com a interferência estava em cima de um armário um dos poucos móveis do nosso lar com minha mãe ao lado escutando atentamente o que falavam e anotando sistematicamente em um papel. O locutor de forma solene, falava coisas que eu não entendia, votos, colégio eleitoral, eleição presidencial, curioso a interroguei sobre o que fazia.
Ternamente me fala com simplicidade que era a eleição para presidente e estava anotando os votos dos candidatos. Momentos depois tendo que ir a cozinha mandou-me anotar explicando que quando falasse Tancredo Neves ou Paulo Maluf eu fizesse um risco na fileira com o nome correspondente. Assim fiz por breves minutos sem saber direito tudo o que significava. Perguntei quem deveria ganhar e obtive como resposta o nome do candidato mineiro. Não me lembro se minha mãe comemorou o resultado ou de qualquer outro fato.
Tancredo Neves naquele dia de forma indireta se elegia presidente e sabe-se lá quantas pessoas iguais a minha mãe tiveram motivos para ter esperança em dias melhores, quantos lares devem ter acompanhado aquela eleição com uma campanha eleitoral como se direta fosse, coisas do Brasil.
Alguns meses depois eu retornava para o hospital e foi internado que em uma visita mamãe falou com carinho "seu pai veio te visitar, ele não foi trabalhar porque o presidente morreu". Enquanto o presidente preferido do povo nem tomava posse e morria eu começaria uma luta pela vida que duraria pelos proximos anos. O menino cresceu e talvez por coincidência se tornou um apaixonado pela política e sente maior orgulho quando se lembra desse episódio narrado por mim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário