“É hora de ir. Acabou. Não existem mais motivos para você ficar aqui”.
Com essa frase meu comandante deu a noticia de que eu deveria sair do posto guardado por mim até agora. Durante longos meses velei essa ponte olhando quase ininterruptamente para o outro lado, esperando um retorno nunca ocorrido. Aqui eu esperei até hoje, quando Karlos em pessoa veio me buscar. Não merecia tanta honra falei, e a resposta foi que minha bravura não poderia ser tratada de outra forma.
Eu fui o último a permanecer aqui, pensei em pedir para sair, mas cumpri meu dever. No fundo do meu coração acalentava a esperança de ver isso aqui fervilhando de soldados, com pessoas rindo e cantando como era antigamente. Hoje em dia só tem casas destruídas, cruzes em alguns lugares, nada mais resta só essa ponte guardada por mim até agora. Agora até ela será destruída, não tenho mais o que fazer aqui. Como já me disseram é hora de ir embora.
Existem outros lugares precisando de soldados, não é igual aqui nos bons tempos, mas nada será eu sei disso. Fui feliz aqui, muito feliz embora nos últimos meses a felicidade tenha ido embora ficando apenas a esperança de dias melhores ou quem sabe os risos de outrora. Dizem-me que eu posso ir para lá também. Posso ajudar com minha experiência. Penso nessa possibilidade, mais logo a descarto. Aqui acaba minha historia no exército, é hora de paz para minha alma. Não quero mais lutas.
Começo a juntar meus pertences, são poucos. De uns tempos para cá, recebia o suficiente para subsistir, trazido pela esperança. Eu aceitava de bom grado, e compartilhava com ela como seria a festa quando todos retornassem e e sozinho permaneci os últimos meses.
Agora acabou. Acabou tudo, a última ponte foi destruída, já não preciso ficar aqui, o fim chegou. Dirijo-me ao carro que me espera, com os soldados me escoltando, olho para trás e me volto em direção ao meu comandante. Quem sabe a gente ainda retorna para cá, pergunto com um fio de esperança. Se um dia retornarmos, será por outro caminho me responde, embora isso seja praticamente impossível. Aqui não voltamos mais, é hora da retirada.
Paro um pouco, respiro, agradeço a Deus, por ter lutado com honra, e sigo em frente. Entro dentro do carro, lágrimas caem, não me importo de esconder. São lágrimas de quem nos últimos meses, suportou tudo sem reclamar, de desilusão, desabafo, alívio. Lágrimas de um último guerreiro partindo do campo de batalha para nunca mais voltar.
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