No
engarrafamento da cidade ele vai dirigindo e olhando o relógio, impaciente com
a demora, tempo é dinheiro e não pode ser desperdiçado. Amaldiçoa o trânsito e
xinga mais uma vez o povo que não sabe votar e os políticos eleitos, incapazes,
corruptos que só sabe sugar os impostos. Olha novamente o horário, vai perder a
reunião urgente, se irrita mais ainda e para aproveitar o tempo começa a
trabalhar ali mesmo falando no celular.
Trabalha
dez a doze horas por dia, nunca tem
férias, no máximo uma licença de dez dias e somente no domingo descansa quando
não tem trabalho acumulado. Seu patrimônio é grande, cada dia está mais rico,
para a sociedade é o exemplo de homem bem sucedido e se orgulha disso, nunca se deu conta de que construiu a cela,
entrou e se trancou. Tem orgulho das algemas nas mãos e olha com desdém quem não
segue o seu caminho, se sente um vencedor quando olha os bens materiais que
possui e não percebe o quanto é derrotado quando não consegue perder meia hora
jogando vídeo game com o seu filho.
No
mesmo engarrafamento, o ônibus lotado leva pessoas para o trabalho, precisam
chegar no horário para não serem despedidos ou descontados no salário, acordam
de madrugada, pegam uma ou mais condução na ida e volta, dormem no trânsito o
que não conseguem em suas casas.
A
lei trabalhista determina o máximo de oito horas de trabalho por dia, mas
muitas vezes é forçado a fazer hora extra, as oito viram dez a volta para casa
é tão demorada quanto à ida, passa quatorze, quinze horas na rua. Usa o horário
de almoço para resolver assuntos pessoais, precisa de tempo para si e só
consegue para servir ao patrão.
Se
tivesse a opção de trabalhar menos ou perto de casa aceitaria somente se não
tivesse redução nos ganhos, mas a oportunidade não aparece e continua a
jornada, aprisionado pelas dívidas, compromissos e necessidade de consumir, não
pode parar.
O
vagabundo acorda em qualquer horário, suas noites são vividas com a mesma
intensidade do dia, não deve satisfação a ninguém e se sente feliz assim. Não
sabe o que e quando irá comer, sua casa tem poucos móveis, o aluguel às vezes
atrasa, não é um namorado que se apresente a família, é um fracasso aos olhos
da sociedade, um exemplo a não ser seguido. Comentam a sua vida desperdiçada
quando poderia ser útil para alguém, sua carteira de trabalho é um documento
largado em algum canto, trabalha o necessário para ter diversão, a propaganda
da televisão não lhe tem como alvo. É livre dos sonhos e temores, não tem ambições
e se preocupa pouco com o dia de amanhã. Não tem bens para proteger e nem medo
de perder o pouco que possui, e às vezes quando a liberdade dói, pensa em como
seria ter uma vida igual aos outro e logo desiste. Não foi feito para ficar
preso a nada e a ninguém.
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