sábado, 22 de setembro de 2012

Os Prisioneiros e O Vagabundo


No engarrafamento da cidade ele vai dirigindo e olhando o relógio, impaciente com a demora, tempo é dinheiro e não pode ser desperdiçado. Amaldiçoa o trânsito e xinga mais uma vez o povo que não sabe votar e os políticos eleitos, incapazes, corruptos que só sabe sugar os impostos. Olha novamente o horário, vai perder a reunião urgente, se irrita mais ainda e para aproveitar o tempo começa a trabalhar ali mesmo falando no celular.
Trabalha dez a doze horas por dia,  nunca tem férias, no máximo uma licença de dez dias e somente no domingo descansa quando não tem trabalho acumulado. Seu patrimônio é grande, cada dia está mais rico, para a sociedade é o exemplo de homem bem sucedido e se orgulha disso,  nunca se deu conta de que construiu a cela, entrou e se trancou. Tem orgulho das algemas nas mãos e olha com desdém quem não segue o seu caminho, se sente um vencedor quando olha os bens materiais que possui e não percebe o quanto é derrotado quando não consegue perder meia hora jogando vídeo game com o seu filho.
No mesmo engarrafamento, o ônibus lotado leva pessoas para o trabalho, precisam chegar no horário para não serem despedidos ou descontados no salário, acordam de madrugada, pegam uma ou mais condução na ida e volta, dormem no trânsito o que não conseguem em suas casas.
A lei trabalhista determina o máximo de oito horas de trabalho por dia, mas muitas vezes é forçado a fazer hora extra, as oito viram dez a volta para casa é tão demorada quanto à ida, passa quatorze, quinze horas na rua. Usa o horário de almoço para resolver assuntos pessoais, precisa de tempo para si e só consegue para servir ao patrão.
Se tivesse a opção de trabalhar menos ou perto de casa aceitaria somente se não tivesse redução nos ganhos, mas a oportunidade não aparece e continua a jornada, aprisionado pelas dívidas, compromissos e necessidade de consumir, não pode parar.
O vagabundo acorda em qualquer horário, suas noites são vividas com a mesma intensidade do dia, não deve satisfação a ninguém e se sente feliz assim. Não sabe o que e quando irá comer, sua casa tem poucos móveis, o aluguel às vezes atrasa, não é um namorado que se apresente a família, é um fracasso aos olhos da sociedade, um exemplo a não ser seguido. Comentam a sua vida desperdiçada quando poderia ser útil para alguém, sua carteira de trabalho é um documento largado em algum canto, trabalha o necessário para ter diversão, a propaganda da televisão não lhe tem como alvo. É livre dos sonhos e temores, não tem ambições e se preocupa pouco com o dia de amanhã. Não tem bens para proteger e nem medo de perder o pouco que possui, e às vezes quando a liberdade dói, pensa em como seria ter uma vida igual aos outro e logo desiste. Não foi feito para ficar preso a nada e a ninguém.

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