sábado, 5 de julho de 2014

Amargor

   No mundo de hoje, ser de esquerda é ficar ao lado das minorias, do mais fraco, preferir justiça a legalidade. Quando alguém me questiona dizendo que não existe mais direita ou esquerda, ou o que é ser de esquerda, geralmente eu uso esse argumento e é o comportamento que eu tento adotar.
    Não sou um militante, não sirvo para militância, não consigo me inserir em grupos ideológicos, fazer parte de partidos políticos ou organizações que defendam uma causa. Quem sabe um dia eu me identifique e seja acolhido por um desses, mas por enquanto sigo o meu rumo tentando manter uma independência. 
   Sempre me considerei de esquerda, apesar de várias vezes discordar, sempre tive respeito por quem luta, milita, vai pras ruas, tenta mudar algo. No entanto, hoje em dia eu sinto um amargo na boca quando eu vejo que muitos militantes da esquerda para demarcar espaço tomam as mesmas atitudes daqueles que criticam.
   Um dia eu vi criticarem o Lula por usar um hospital privado para tratamento médico e não tive dúvidas em dizer que era a direita raivosa aprontando mais uma. Em outra ocasião um político tentou capitalizar politicamente quando ocorreu um desabamento no Rio de Janeiro. As críticas foram ferozes e eu concordei com ela, não se usa uma tragédia para fins políticos, pensei. Apesar de discordar sempre tive a certeza que a esquerda brasileira era diferente da direita, lados opostos sempre, vinho e água, não se misturavam e, no entanto, parece que a copa do mundo no Brasil conseguiu embaralhar as cartas e no chiqueiro, os porcos que chafurdam na lama estão misturados.
    Um viaduto em construção desabou em Belo Horizonte, era uma obra planejada para a copa e assim como tantas outras não foi feita a tempo. Os grandes jornais foram céleres em associar a tragédia que matou duas pessoas e feriram outras ao evento esportivo e ao governo federal embora a relação seja mínima. Não me surpreendeu que isso ocorresse o entristecedor é que a esquerda agisse iguais os barões da mídia colocando-se no mesmo nível de quem tanto critica, usando os mesmos métodos, a mesma canalhice, a mesma desonestidade. Criticaram o Luciano Huck por ele agir oportunamente em situações trágicas e, no entanto despudoradamente agiram igual, pois não podiam perder essa oportunidade. 
  Na sexta o jogador Neymar quebrou uma vértebra e qual não foi a minha surpresa quando vi militantes, pessoas esclarecidas mandar o atleta se tratar no SUS igual um dia fizeram com o Lula, fazer associações entre o acidente de trabalho com o acidente na cidade mineira relativizando a dor de um para dá mais importância a outro, usando a tragédia de duas famílias para fazer politicagem tal qual um dia criticaram.

   A tragédia em BH, a lesão do Neymar serviram para escancarar que parte da esquerda brasileira se perdeu e está andando lado a lado com a direita. Isso é triste demais.

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