No mundo de hoje, ser de esquerda é ficar ao lado das
minorias, do mais fraco, preferir justiça a legalidade. Quando alguém me
questiona dizendo que não existe mais direita ou esquerda, ou o que é ser de
esquerda, geralmente eu uso esse argumento e é o comportamento que eu tento
adotar.
Não sou um
militante, não sirvo para militância, não consigo me inserir em grupos
ideológicos, fazer parte de partidos políticos ou organizações que defendam uma
causa. Quem sabe um dia eu me identifique e seja acolhido por um desses, mas
por enquanto sigo o meu rumo tentando manter uma independência.
Sempre me
considerei de esquerda, apesar de várias vezes discordar, sempre tive respeito
por quem luta, milita, vai pras ruas, tenta mudar algo. No entanto, hoje em dia
eu sinto um amargo na boca quando eu vejo que muitos militantes da esquerda
para demarcar espaço tomam as mesmas atitudes daqueles que criticam.
Um dia eu vi
criticarem o Lula por usar um hospital privado para tratamento médico e não
tive dúvidas em dizer que era a direita raivosa aprontando mais uma. Em outra
ocasião um político tentou capitalizar politicamente quando ocorreu um
desabamento no Rio de Janeiro. As críticas foram ferozes e eu concordei com
ela, não se usa uma tragédia para fins políticos, pensei. Apesar de discordar
sempre tive a certeza que a esquerda brasileira era diferente da direita, lados
opostos sempre, vinho e água, não se misturavam e, no entanto, parece que a
copa do mundo no Brasil conseguiu embaralhar as cartas e no chiqueiro, os
porcos que chafurdam na lama estão misturados.
Um viaduto em
construção desabou em Belo Horizonte, era uma obra planejada para a copa e
assim como tantas outras não foi feita a tempo. Os grandes jornais foram
céleres em associar a tragédia que matou duas pessoas e feriram outras ao evento
esportivo e ao governo federal embora a relação seja mínima. Não me surpreendeu
que isso ocorresse o entristecedor é que a esquerda agisse iguais os barões da
mídia colocando-se no mesmo nível de quem tanto critica, usando os mesmos
métodos, a mesma canalhice, a mesma desonestidade. Criticaram o Luciano Huck
por ele agir oportunamente em situações trágicas e, no entanto despudoradamente
agiram igual, pois não podiam perder essa oportunidade.
Na sexta o jogador
Neymar quebrou uma vértebra e qual não foi a minha surpresa quando vi
militantes, pessoas esclarecidas mandar o atleta se tratar no SUS igual um dia
fizeram com o Lula, fazer associações entre o acidente de trabalho com o
acidente na cidade mineira relativizando a dor de um para dá mais importância a
outro, usando a tragédia de duas famílias para fazer politicagem tal qual um
dia criticaram.
A tragédia em BH,
a lesão do Neymar serviram para escancarar que parte da esquerda brasileira se
perdeu e está andando lado a lado com a direita. Isso é triste demais.
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